As Raízes Históricas do Eixo do Mal Latino Americano III

HEIOR DE PAOLA - MÍDIA SEM MÁSCARA - 25 DE AGOSTO, 2005


“Pode-se fazer uma enormidade de coisas: seqüestrar, dinamitar, abater os chefes de polícia (...) depois continuar expropriando armas e dinheiro. Desejamos que o Exército adquira armamento moderno e eficaz; nós o tiraremos dele. (...) Nós estamos ligados à OLAS bem como a outras organizações revolucionárias do continente e, em particular, às que nos países vizinhos lutam com a mesma perspectiva que nós." CARLOS MARIGHELA – Terrorista


TERCEIRA OFENSIVA


A LUTA ARMADA


“Pode-se fazer uma enormidade de coisas: seqüestrar, dinamitar, abater os chefes de polícia (...) depois continuar expropriando armas e dinheiro. Desejamos que o Exército adquira armamento moderno e eficaz; nós o tiraremos dele. (...) Nós estamos ligados à OLAS bem como a outras organizações revolucionárias do continente e, em particular, às que nos países vizinhos lutam com a mesma perspectiva que nós. É, enfim, um dever para com Cuba; libertá-la do cerco imperialista ou aliviar seu peso, combatendo-o externamente em todas as partes. A revolução cubana é a vanguarda da revolução latino-americana; esta vanguarda deve sobreviver”.

CARLOS MARIGHELA – Terrorista


Como vimos na seção anterior, a pronta reação militar brasileira em 1964 deu uma brusca freada na tentativa de tomar o poder por dentro de um governo fraco, caótico irresponsável e cúmplice da estratégia comunista. A resposta não se fez esperar, menos de dois anos depois, com a Conferência Tricontinental e a fundação da OLAS para a organização de novas bases para a continuação da ofensiva.


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Recapitulando: a primeira ofensiva no Brasil, golpista, foi a Intentona em 1935. A segunda foi a tentativa de tomada do poder “por dentro”. Entramos agora na terceira, a luta armada. Como veremos adiante, a Terceira Estratégia já estava em marcha desde 1958 e a visita de Kossigin a Cuba, referida no final da última seção, já fazia parte da mesma, mas não se freia um trem em alta velocidade sem risco de descarrilamento. Como muitos sabem, os Partidos Comunistas obedientes a Moscou continuaram defendendo a via pacífica e parlamentar e, aqui no Brasil, o PCB colocou-se frontalmente contra a luta armada.


As ações armadas que já existiam de forma esporádica antes de 64 – como as Ligas Camponesas de Francisco Julião e os Grupos dos Onze de Leonel Brizola [1] - se intensificaram desde então mas ainda sem as características de ação coordenada. Já em agosto de 64 descobria-se um plano terrorista de inspiração brizolista em Porto Alegre, que levava o nome de Operação Pintassilgo [2], que previa o ataque a diversos quartéis, a tomada da Base Aérea de Canoas, no Rio Grande do Sul, e a utilização dos aviões da FAB para o bombardeamento aéreo do Palácio Piratini, visando à morte do Governador Ildo Meneghetti. A prisão em Porto Alegre, em 26 de novembro de 1964, do capitão-aviador, Alfredo Ribeiro Daudt, abortou a operação e todos os seus planos caíram em poder da polícia. Diversos militares da Aeronáutica estavam envolvidos. Em novembro houve explosão de bomba no Cine Bruni no Rio de Janeiro; em março de 65, nova tentativa brizolista, agora de uma ação guerrilheira com financiamento castrista, através do Coronel Jéferson Cardim Osório, também fracassada no Paraná; atentado a bomba contra o jornal “O Estado de São Paulo” em abril. Na Argélia, Miguel Arraes consegue o apoio de Ahmed Ben Bella para lançar as bases de um movimento guerrilheiro no Brasil. Mesmo com o golpe de Estado dado em Argel por Houari Boumedienne foram mantidas as garantias.


A manhã de 25 de julho de 1966 pode ser considerada como o marco inicial da ação terrorista no Brasil, já como primeiro resultado entre nós da Conferência Tricontinental, quando três bombas explodiram no Recife, das quais a mais hedionda foi a do Aeroporto Internacional dos Guararapes, que pretendia eliminar o candidato a Presidente da República, General Costa e Silva. No total 2 pessoas morreram – um jornalista e um almirante reformado – e 16 ficaram feridas, das quais 13 eram civis, entre jornalistas, estudantes, professores, advogados e funcionários públicos, além de uma criança de 6 anos.


Em 1o de dezembro do mesmo ano um dos mais importantes membros do Comitê Central do PCB, Carlos Marighela, pede demissão da Comissão Executiva do Partido devido a discordâncias quanto à manutenção da luta pacífica e parlamentar contra o regime militar. Já no início do ano havia escrito um panfleto intitulado “A Crise Brasileira” onde deixa claro que “o Exército Brasileiro terá que ser derrotado e destruído por ser o poder armado da classe dominante”.


No ano de 1967 Marighela vence as eleições internas na Conferência Estadual do PCB de São Paulo e, em julho, contrariando a orientação de Prestes e de Moscou comparece à reunião da OLAS que Kossygin tentara adiar mas Fidel confirmara. Sendo desautorizado por Prestes recusa-se a obedecer e é expulso do PCB em setembro, fundando a Ação Libertadora Nacional (ALN), dando início à luta armada mais organizada seguindo seu “Mini Manual de Guerrilha Urbana” [3].


A reunião da OLAS (31/07 a 10/08/67) contou com a presença de mais de setecentos delegados representando movimentos revolucionários de 22 países latino-americanos. Foi enfatizada a definição de ação contra a intervenção político-militar e a penetração econômica do imperialismo norte-americano. O documento final determinava, por consenso, a existência de um Comitê Permanente, sediado em Havana, que se constituiria na “genuína representação dos povos da América Latina” (como vimos na Parte I para desqualificar totalmente a OEA por ter expulsado Cuba). Cuba firmava-se assim como a vanguarda revolucionária da América Latina. Apesar de, na aparência, a OLAS se tratar apenas de um órgão de solidariedade não impositivo, era realmente uma nova Internacional Comunista, um novo Komintern, dirigido para a área específica da América Latina. À sua sombra várias organizações terroristas se estabeleceram em todos os países, sendo as mais importantes da América do Sul:


- no Brasil, além da ALN e das ações armadas do PCB, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) de Carlos Lamaraca outro terrorista e desertor, a VAR-Palmares, a Organização Revolucionária Marxista Política Operária (POLOP); a Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil (APML) [4];


- no Uruguai, o Movimiento de Liberación Nacional (TUPAMAROS);


- na Argentina, o Movimiento Peronista MONTONERO, o Ejército Revolucionário del Pueblo (ERP);


- no Chile, o Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR);


- no Peru, o Movimiento Revolucionario Tupac Amaru (MRTA) e o Sendero Luminoso;


- na Colômbia, Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC) e o Ejército de Liberación Nacional (ELN);


- na Bolívia o Ejército de Liberación Nacional (ELN).


Mais uma vez, a pronta ação militar brasileira, com a edição do Ato Institucional nº 5 em 13 de dezembro de 1968, que dava mais poderes às forças da lei para combater o terrorismo e a guerrilha, paralisou momentaneamente a ofensiva. A violência armada não foi, portanto, como hoje se ensina aos jovens, uma reação ao Ato Institucional nº 5 que "endureceu" o regime. Ela já existia antes, muito antes mesmo, já nos governos Juscelino, Jânio Quadros e João Goulart. Pelo contrário, tanto a Contra-Revolução de 64 quanto o AI-5 foram reações à crescente escalada da luta armada de acordo com as determinações de Havana.


Mas a ofensiva só amainou, não arrefeceu o ânimo nos demais países da América Latina, cabendo uma menção importante ao Chile. Antes disto, no mesmo ano de 1968 uma Junta Militar esquerdista, comandada pelo General Juan Velasco Alvarado, tomou o poder no Peru, estabelecendo um governo nacionalista e pró-soviético que durou sete anos. A aproximação com Cuba e URSS chegou a ponto de equipar as Forças Armadas Peruanas com armamento exclusivamente soviético (do que o país se ressente até hoje) e permitiu o estacionamento de tropas guerrilheiras de outros países. Em setembro de 1969, outro General nacionalista Alfredo Ovando Candia depõe o Presidente da Bolívia Luis Adolfo Siles Salinas. Em setembro de 1970 ganha as eleições chilenas o socialista e idealizador da OLAS, Salvador Allende. O Cone Sul, com exceção da Argentina, encontrava-se nas mãos das esquerdas.


A história do governo Allende e sua deposição por Augusto Pinochet tem sido contada com as habituais mentiras da esquerda e não cabe aqui entrar em detalhes [5] mas se faz necessária uma breve explicação sobre a famosa Operação Condor, tão atacada como um complô dos militares “fascistas” do Cone Sul contra pobres vítimas que apenas queriam “libertar” seus povos.


É preciso recordar que o desafio terrorista contra os governos do continente, há 25 anos, nada mais era do que uma derivação da Guerra Fria [6]. Em 1974 - menos de um ano após a deposição do governo marxista de Allende, foi fundada em Paris uma Junta de Coordenação Revolucionária (JCR), integrada pelo Exército de Libertação Nacional (ELN) boliviano, o Exército Revolucionário do Povo (ERP) argentino, o Movimento de Libertação Nacional - Tupamaros (MLN-T) uruguaio e o Movimento de Izquierda Revolucionário (MIR) chileno. O secretário-geral da JCR era o cubano Fernando Luis Alvarez, membro da Direção Geral de Inteligência (DGI) cubana, e casado com Ana Maria Guevara, irmã de Che Guevara - o que conferia à JCR um caráter de instrumento do Estado cubano. Sua função era coordenar as ações da esquerda revolucionária latino-americana, principalmente no Cone Sul. Nos anos 80, a ação armada subversiva ganhou impulso no Chile, com os sucessivos desembarques de armas realizados desde navios cubanos, em janeiro, junho e julho de 1986: 3.200 fuzis, 114 lança-foguetes soviéticos RPG-7, 167 foguetes anti-blindagem LAW (alguns utilizados no atentado contra Pinochet nesse mesmo ano de 1986, que causou a morte de 5 militares de sua escolta), granadas, munições e outras armas. Ou seja, o maior contrabando de armas jamais registrado na América Latina.


Mais uma vez a história “oficial” esquerdista inverte os dados: na realidade a Operação Condor foi uma reação às ações coordenadas previamente dos movimentos revolucionários e quando existe uma ameaça terrorista de caráter internacional, os órgãos de segurança dos países ameaçados se coordenam. Sempre foi assim, e continua sendo.


TERCEIRA GRANDE ESTRATÉGIA (DE LONGO PRAZO)


Our national traedy (as well as other former communist countries)
is that there was no clear defeat of the ruling communist system, no
Nuremberg-style trial of its crimes, no vigorous lustration
(de-communisation) process. The West was quick to celebrate
the end of the Cold War and the victory of democracy in the former
Iron Curtained countries, but in reality there was no change of “elites”there.

VLADIMIR BUKOVSKY

Para entrar no estudo desta terceira grande estratégia é preciso retroceder ao final da década de 50 e detalhar alguns pontos que já foram tocados. Entre 1958 e 1960, reconhecendo as deficiências industriais e agrícolas e a crise geral do sistema, inclusive da ideologia em todo o mundo, a cúpula do KGB e Khrushchov decidiram fazer um estudo aprofundado para elaborar uma nova estratégia mundial de longo prazo.


Os estudos foram levados a efeito sob a liderança de Alieksandr Shieliepin, então à testa do KGB, e mostraram que não mais havia lugar no mundo para levantes populares violentos e revoluções sangrentas - a tomada de poder em Cuba foi, durante a fase de estudos, um presente dos céus muito bem costurado. Também tornava-se cada vez mais difícil de estabelecer regimes comunistas rígidos com estatização total da economia, comprovadamente ineficientes. Foi decidido que a nova estratégia de longo prazo visaria objetivos intermediários que foram amplamente anunciados, escondendo-se no entanto o essencial: o objetivo final continuava a ser o mesmo, o domínio mundial.


A finalidade essencial da nova estratégia era fazer o mundo ocidental acreditar que o comunismo acabara e a democracia e o liberalismo econômico venceram na Europa do Leste. Com isto, desmoralizar qualquer movimento anti-comunista como paranóico, reacionário, ultrapassado, caduco, enfim, não dar ouvidos aos que percebiam a manobra estratégica. Pretendia-se enfraquecer e neutralizar a ideologia anti-comunista e sua influência política nos USA, e no resto do mundo, apresentando-a como anacronismo reacionário sobrevivente da Guerra Fria e um obstáculo à re-estruturação mundial e à paz. O resultado principal colhido na década de 70 foi a chamada détente, palavra francesa que significa “relaxamento de tensões” iniciada pelo mais ferrenho anti-comunista da década anterior, Richard Nixon quando de sua viagem a Moscou em maio de 1972, para o encontro com Leonid Briezhniev e, posteriormente, com sua ida à China no mesmo ano. Com a détente pretendia-se demonstrar que até no Ocidente a “abertura” do regime estava sendo aceita como legítima.


Com isto se pretendia reduzir a influência mundial dos países ocidentais, inverter o equilíbrio de poder a favor do bloco comunista rompendo as alianças militares ocidentais, paralisar os programas ocidentais de armamentos e explorar esta inversão de equilíbrio no sentido da conquista final do mundo capitalista através de “convergência” em termos comunistas.


Preparava-se a adoção plena da Perestroika, palavra que em russo significa re-estruturação, não como foi candidamente aceito nos meios ocidentais a re-estruturação da URSS mas da visão que todo o mundo capitalista tinha da mesma, segundo as linhas de “convergência”, com vistas ao Governo Mundial.


A estratégia da “convergência” explora a colaboração inconsciente dos inimigos através de aparentes reformas econômicas e pseudo-democráticas criando uma falsa oposição controlada na URSS e nos demais países socialistas. Estimulou-se a crença da existência de três grupos, “liberais”, “dogmáticos” e “pragmáticos”, em luta entre si na URSS, para usar a falsa idéia da existência de conservadores “anti-progressistas” para aliar-se aos USA no combate a estes grupos nos dois lados, e liquidar com os verdadeiros conservadores no lado americano! Cabe explicitar que a palavra russa para convergência é sblizhienie que numa tradução literal significa “aproximar para contato”. Esta aproximação deveria ser feita através da exploração das tendências globalizantes da elite ocidental (p. ex., Robert Muller, Al Gore, Ramsey Clark, Bill & Hillary Clinton, Armand Hammer, George Bush Sr, Noam Chomsky, John Kerry) em íntima colaboração com os comunistas para estabelecer “Um Só Mundo”, a “Nova Ordem Mundial”.


As propostas foram apresentadas e aprovadas pelo Congresso dos Oitenta e Um Partidos Comunistas, em Moscou, em 1960. Não foi mera coincidência que neste mesmo ano foi fundada a Universidade da Amizade entre os Povos, mas conhecida como Universidade Patrice Lumumba, nome dado um ano após, destinada a estudantes selecionados pelos partidos comunistas de todo o mundo – mesmo os que estavam na clandestinidade –, para formar líderes fiéis à ideologia comunista em todos os setores da vida intelectual e acadêmica do ocidente. Já no primeiro ano foram registrados 539 estudantes de 59 países, mais 57 soviéticos selecionados pelo KGB. Com exceção daqueles de performance excepcional, que foram selecionados para agentes do KGB, os demais deviam retornar aos seus países como idiotas úteis para intensificar a propaganda da URSS “amante da paz” e da humanização do regime – “socialismo com face humana” – em seus respectivos países.


Ocorreram várias reuniões secretas entre Khrushchov e Mao Zedong onde teria ficado decidido um acordo secreto com a China para início da Grande Estratégia do Bloco, a da tesoura, ou de pinça: para dar credibilidade às “mudanças” era preciso que Mao se opusesse e, defendendo Stalin, “rompesse” com a URSS. Ficou aí definido o “Conflito Sino—Soviético” que viria a se intensificar no início dos anos 60.


Foram imediatamente abolidas as práticas stalinistas de repressão, restaurado o estilo leninista de liderança colegiada e iniciada a preparação para introduzir a fase final de re-estruturação e “democratização” da URSS. Foram atribuídos novos papéis ao KGB e adotado um padrão de não violência. A parte secreta da estratégia incluía a montagem do poderio militar do bloco como um todo sem que o Ocidente percebesse (por isto o pseudo-conflito com a China), um retorno ao estilo leninista de atividade diplomática contra os principais países inimigos, o uso de guerra psicológica (KGB e outros) para desestabilizar o mundo ocidental e suas instituições. Simultaneamente explorando o potencial dos partidos dos países comunistas, dos partidos comunistas ocidentais e dos “movimentos de libertação” no Ocidente.


Na Itália, onde estava o maior partido comunista europeu, Palmiro Togliatti, que substituíra Antonio Gramsci em 1937 como Presidente (no exílio) do Partido e muito aprendera com suas “Cartas do Cárcere” (ver adiante), começou a preparar o que mais tarde viria a ser o “Eurocomunismo”, uma versão adocicada e palatável que dava uma aparência civilizada e democrática no sentido de aceitar o jogo da alternância no poder e apelava para a classe média e os novos movimentos que estavam surgindo depois da guerra, como o feminismo e pela “libertação” dos homossexuais. Em 1964 assinou o “Memorando de Yalta” em que, com secreta aquiescência de Khrushchov, declarava o PCI autônomo de Moscou e propunha um novo modelo para os países socialistas, o chamado “Unidade na Diversidade”. Em termos internacionais cunhou o termo “policentrismo” para significar que a unidade socialista mundial não funcionaria sem que cada partido pudesse se desenvolver de forma autônoma, sem a interferência de outras fontes. Mas isto era apenas a jogada de um velho stalinista, na verdade um dos maiores amigos de Stalin durante o exílio.


Não por coincidência, uma das decisões mais importantes tomadas em Moscou foi a de estudar a fundo as teses de Antonio Gramsci. Logo após sua morte em 1937, sua cunhada encaminhou seus escritos para Togliatti, então exilado em Moscou. Somente depois do fim da II Guerra Togliatti organizou e publicou a obra.


ANTONIO GRAMSCI E A ORGANIZAÇÃO DA CULTURA


Não cabe aqui um estudo profundo da obra de Gramsci, para isto remeto o leitor às obras citadas em [7], muito das quais será aqui aproveitado. Com Gramsci fica patente que, embora mantendo o framework proletário, o foco de “classe” muda completamente dos “proletários” para os “intelectuais”. Não se trata mais de uma “revolução proletária” mas sim de uma revolução dos intelectuais com os proletários a reboque. Gramsci simplesmente assume o que a revolução comunista sempre foi: uma revolução de elite travestida de popular.


Inicialmente, Gramsci faz uma distinção entre o intelectual “orgânico” – criado pela classe dos intelectuais, pelo partido-classe – e o intelectual “tradicional” – aquele que mantém sua autonomia e continuidade histórica. A organização da cultura é conseguida exatamente através da hegemonia dos intelectuais orgânicos (organizados, como órgãos de um único organismo, o Partido, o “intelectual coletivo”). Cabe a estes homogeneizar a classe que representam e elevá-la à consciência de sua própria função histórica: transformar uma classe em-si numa classe para-si [8], a Nova Classe ou Nomenklatura [9]. O conceito de intelectual, no entanto é bem amplo, abrigando professores, contadores, funcionários públicos graduados ou de estatais, profissionais da imprensa, show-business e tutti quanti. Toda a atividade prática necessita criar uma espécie de escola de dirigentes, que tende a criar um grupo de intelectuais “especialistas” [10], que servem para orientar os demais quanto a seus interesses específicos de classe. Note-se que sempre que ocorre algum fato relevante a imprensa recorre logo a “especialistas”, pessoas designadas pelo intelectual coletivo para dizer como os outros devem pensar a respeito do assunto. Quem ouse pensar diferente é severamente admoestado pelos “especialistas”, obrigado a uma auto-crítica e se reincidir, é posto no ostracismo e perde o apoio de todos os companheiros de viagem. A proposta de revolução educacional de Gramsci sugere a criação de escolas profissionais especializadas, nas quais o destino do aluno e sua futura atividade serão predeterminados.


O controle das consciências deve ser o objetivo político maior. Este controle é assegurado pelo domínio sobre os órgãos de informação. O objetivo é o controle do pensamento na própria fonte, na própria mente que absorve e processa as informações e a melhor forma de fazê-lo é modelar palavras e frases da maneira que melhor sirvam aos propósitos políticos. Em outro artigo me refiro à modelação das palavras ética e paz [11]. O controle da mente Ocidental, além do uso desonesto da linguagem e das informações, é feito também através da desmoralização proposital do Ocidente por ataques corrosivos contra as instituições, promovendo ativamente o uso de drogas, o agnosticismo, o relativismo moral e cognitivo, a permissividade e o estímulo às transgressões (palavra mágica altamente sedutora, principalmente para os jovens) e ataques concentrados à família tradicional, promovendo a homossexualidade, o aborto, as famílias “não-tradicionais”. Desconstruindo o mundo ocidental este ficará presa fácil para a Nova Ordem Mundial comunista. O “desconstrucionismo” - que faz tanto sucesso no Brasil através de Jacques Derrida - é parte fundamental da estratégia [12]. Vem daí a expressão “pós-moderno”, o resultado da desconstrução até mesmo do próprio “modernismo” burguês. Um outro método eficiente é a educação “construtivista” que não passa de um desconstrutivismo radical do senso comum e a introdução na criança daquilo que o intelectual coletivo – via magistério – quer, mas de tal modo que a criança pensa estar construindo seu mundo por si mesma.


A linguagem precisa também ser desconstruída e no seu lugar colocar uma outra, a linguagem do “politicamente correto”. As ciências – fruto exclusivo da civilização judaico-cristã – também são desmoralizadas pela introdução de formas “alternativas” (medicinas ou terapias alternativas, superstições orientais apresentadas como “outras ciências”, etc.). São “novas formas de luta pela hegemonia”, alguns são assuntos jamais sonhados por Gramsci mas que são desenvolvidas sob sua égide pelo intelectual coletivo.


As primeiras a serem destruídas devem ser as tradições morais, culturais e religiosas. Gorbachov em 1987, já em pleno processo de Perestroika, afirmou: “Não pode existir trégua na luta contra a religião porque enquanto ela existir, o comunismo não prevalecerá. Devemos intensificar a destruição de todas as religiões aonde for que elas sejam praticadas ou ensinadas” [13]. O principal meio de destruição das religiões passou a ser não mais o ataque frontal, que poucos resultados deu, mas a infiltração nos seminários das idéias marxistas, como a “teologia” da libertação, conforme sugerido por Gramsci que percebera que a Igreja Católica é indestrutível num confronto direto. Um outro meio é o estímulo a crenças e práticas primitivas como o culto a Gaia, as seitas indígenas primitivas, a teosofia, os cultos orientais, já explorados por mim noutro artigo [14].


Note-se que Gramsci enfatizava não a pregação revolucionária aberta, mas a penetração camuflada e sutil. “Para a revolução gramsciana vale menos um orador, um agitador notório do que um jornalista discreto que, sem tomar posição explícita, vá delicadamente mudando o teor do noticiário, ou do que um cineasta cujos filmes, sem qualquer mensagem política ostensiva, afeiçoem o público a um novo imaginário, gerador de um novo senso comum. Jornalistas, cineastas, músicos, psicólogos, pedagogos infantis e conselheiros familiares representam a tropa de elite do exército gramsciano” (..) “cuja atuação cria novas reações, novas atitudes morais que, no momento propício, se integrarão harmoniosamente na hegemonia comunista” (O. De C., op. cit.), palavra que é riscada do dicionário gramsciano.


A estratégia política de “transição pacífica para o socialismo” é montada sobre esta infiltração cultural; por esta razão, é necessária a defesa intransigente do ambiente mais democrático possível. A diferença com os partidos verdadeiramente democráticos é que, para estes últimos, a democracia é um fim político em si para florescimento das liberdades de pensamento, religiosa, econômica. Para o partido-classe, não passa de um meio para acabar com ela assim que passem ao estágio seguinte: o da hegemonia e do consenso. Por isto esses partidos são os mais intransigentes defensores da ampliação e aprofundamento das franquias democráticas e de conceitos tais como cidadania – tão sedutor que é papagaiado até por quem não concorda com os fins do partido-classe -, com a vantagem adicional de convencer a população de que são realmente os maiores democratas.


O consenso torna-se hegemônico quando o senso comum – conjunto de valores, tradições, filosofias, religiões, etc., aceitos consciente ou inconscientemente pela maioria de uma sociedade – é superado e esta sociedade passa a pensar de forma que acredita ser espontânea e autônoma aquilo que lhe foi incutido de forma subliminar, lenta e gradual pelo intelectual coletivo.


No entanto, é preciso levar em conta que o intelectual coletivo não passa do imbecil coletivo (apud Olavo de Carvalho): Gramsci é apenas o “profeta da imbecilidade, o guia de hordas de imbecis para quem a verdade é a mentira e a mentira é a verdade (...) O perigo que há nela é a malícia que obscurece, não a inteligência que clareia; e a malícia é a contrafação simiesca da inteligência” (0. de C., op.cit). O gramcismo levado às suas últimas conseqüências resultará em varrer a inteligência da face da Terra, o retorno à barbárie mais primitiva, o fim da ciência e da filosofia - enquanto busca da verdade - e a paralisação de todo progresso, seja do pensamento, seja tecnológico.



SEGUE: QUARTA OFENSIVA NO MUNDO E NA AMÉRICA LATINA: O EIXO DO MAL


NOTAS:
[1] Para informações completas sobre os atos terroristas ver História do Terrorismo no Brasil, CD-ROM (3.42 Mb)( distribuído pela ONG TERNUMA (Terrorismo Nunca Mais) que pode ser obtido gratuitamente no site www.ternuma.org.

[2] Estas e as demais informações deste teor têm como fonte o livro 1964, A Revolução Perdida, de Raymundo Negrão Torres, ed. pelo autor, Curitiba, 2002.

[3]Para ler na íntegra em Inglês ir a http://www.marxists.org/archive/marighella-carlos/1969/06/minimanual-urban-guerrilla/. Uma boa resenha em Português pode ser encontrada no artigo de Carlos I. S. Azambuja.

[4] Para uma visão mais abrangente: C. I. S. Azambuja, e do mesmo autor o Cap 48 do livro A Hidra Vermelha, Ed Samizdat, 1985.

[5]Uma visão mais verdadeira pode ser encontrada em http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=3797

[6]Para o que se segue ver de C. I. S. Azambuja.

[7] Antonio Gramsci, Cartas do Cárcere, Civilização Brasileira, 1966; Antonio Gramsci, Os Intelectuais e a Organização da Cultura, idem, 1979; Sergio A. de Avellar Coutinho, A Revolução Gramcista no Ocidente, Ed. Ombro a Ombro, 2002; Olavo de Carvalho, A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci, disponível para download em www.olavodecarvalho.org. A bibliografia é copiosa para quem quiser se aprofundar.

[8] Carlos Nelson Coutinho, introdução ao livro Os intelectuais e a Organização da Cultura.

[9]Ver meu Uma Questão de Metodologia – Parte II.

[10] Ver meu artigo em http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=3785

[11] Uma questão de Metodologia – Parte I.

[12] Carlos Reis, http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=2797

[13] Perestroika Deception

[14]True Lies II: A Face Oculta do Governo Mundial.

Leia também As raízes históricas do Eixo do Mal Latino-Americano Parte I e II:

https://www.heitordepaola.online/post/as-ra%C3%ADzes-hist%C3%B3ricas-do-eixo-do-mal-latino-americano


https://www.heitordepaola.online/post/as-ra%C3%ADzes-hist%C3%B3ricas-do-eixo-do-mal-latino-americano-ii


 

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