VW x VWB

- Jacy de Souza Mendonça - 27 Set, 2020 -




Estarrecido, li a página A8 do Estadão de 24/09/2020, que noticia a celebração de acordo assinado pela VW com o MP, tendo por objeto o encerramento de pendência da empresa, relativa à acusação de seu comportamento, no Brasil, durante o governo militar.


Trabalhei na Volkswagen do Brasil de 1969 a 1982 como Gerente do setor jurídico e, a partir daí, até 1992, como Diretor de Recursos Humanos. Agora, beirando os 90 anos de idade, pretendia ensarilhar minhas armas, guardar minha pena e recolher-me ao silêncio, mas os fatos aqui narrados exigem a retomada de meu discurso, mais candente, em respeito e homenagem aos colegas injustamente agredidos pela acolhida dada pela empresa a estelionatários internacionais.


Para recordar meu involuntário envolvimento no evento, limito-me à minha memória, sem socorrer-me de qualquer tipo de arquivo.


Acredito que há dois ou três anos, recebi o telefonema de uma pessoa que, falando ótimo português, se disse jornalista alemã e que me telefonava por recomendação do Dr. Carl Hahn, ex-Presidente mundial da VW. A citação desse nome, para mim, dispensou qualquer questionamento e provocou a imediata aceitação da proposta. Ela desejava falar comigo a respeito da vida da empresa durante os governos militares do Brasil. Acertada a data, meses mais tarde veio à minha residência em São Bernardo do Campo, acompanhada por um grupo de técnicos, portando farto equipamento de filmagem. Disse, então, estar preparando reportagem para a televisão alemã sobre as relações da VW com o governo brasileiro durante a ditadura militar. Rebati, de pronto, que aqui não tivemos ditadura militar e sim um período de governantes militares. Ditadura da qual me lembrava, ocorrera durante meus primeiros 15 anos de vida, com Getúlio Vargas na presidência do País, em paralelo cronológico com Adolf Hitler na Alemanha, mas, comparadas as duas experiências, a nossa equivaleria a menos de 5% da tragédia nazista. Assim começou um diálogo difícil que fui obrigado a suportar. O núcleo da conversa deslocou-se em seguida para a acusação de que a VW do Brasil teria se comprometido e auxiliado os governos militares perseguindo seus funcionários que com eles não simpatizavam, punindo-os com torturas em dependência preparada e mantida para esse fim. Contestei com veemência todas essas  inverdades dizendo que nos meus 25 anos de empresa nunca ouvi falar em algo sequer parecido com o que estava escutando; ao contrário, a empresa em que vivi tanto tempo tratava seus colaboradores não só com absoluto respeito, mas preocupando-se até em gerar para eles o máximo possível de bem-estar, mesmo fora do local de trabalho. A conversa terminou com a promessa da equipe de enviar-me cópia do trabalho que estavam elaborando. De minha parte, dei-lhes um livro sobre o assunto, com o propósito de desfazer o quadro de mentiras em que laboravam.


Passados meses fui informado por terceiros de que eles haviam preparado um vídeo que fora divulgado pela televisão na Alemanha. Consegui acesso a ele e fui surpreendido com acusações absurdas e mentirosas de um ex-funcionário, que deixara a empresa por iniciativa própria e se dizia vítima de violência. Enquanto trabalhava na fábrica, teria sido preso por dois policiais armados com metralhadoras, acompanhados pelo chefe da Segurança da VWB, Adhemar Rudge, que, também armado, assistira a violência encostado em uma parede. A cena descrita lembrava um filme de terror e chamava a atenção por dupla razão: NINGUÉM portava, porque sempre foi proibido portar arma dentro da empresa; nem o pessoal da Segurança Patrimonial. Inexistia e jamais tinha existido sala de tortura no local Além disso, em nenhuma parte do mundo, para prender um cidadão desarmado, seriam necessários dois policiais com metralhadoras. Meu choque foi muito maior quando li que eu era acusado de ser o chefe da Segurança da empresa. É verdade que, quando Diretor de Recursos Humanos, assumi essa função, mas isso ocorreu mais de 10 anos após o fato fictício por eles alegado. Certamente queriam me intimidar, desconhecedores de que eu jamais me intimidaria diante de inverdade dessa natureza.


Tempos depois, fiquei sabendo que, valendo-se daquele filme, o grupo tentava extorquir dinheiro da VW na Alemanha. Não cumpriram o compromisso de enviar-me cópia. Esperei, então, que, apesar de aposentado, a empresa algum dia fosse me pedir informações a respeito, o que jamais ocorreu. Só agora sou surpreendido por essas aleivosias.


O que mais me espanta nessa página de jornal é ler que um colega, na Alemanha, sem buscar qualquer informação, ouse lamentar que tais violações tenham ocorrido e que, para a Volkswagen AG é importante lidar com responsabilidade com esse capítulo negativo da História do Brasil. Saiba, então, meu colega, que esse capítulo, na verdade, jamais ocorreu, embora seja impossível apagar as consequências de suas injuriosas e mentirosas palavras. Trata-se de fruto podre da fantasia de mentes criminosas que manipulam sua astúcia para arrancar dinheiro de uma empresa séria, mas com dirigentes assustadiços.


Se é fato que a matriz optou por achincalhar sua filial com o objetivo de sair das páginas dos jornais, é também verdade que ela jogou lama fétida na cara e na honra de colaboradores dignos que não merecem e nunca mereceram esse tipo de tratamento. É em defesa deles e de todos os brasileiros expressamente atingidos pela infâmia que resolvo levantar minha voz; é principalmente em defesa dos trabalhadores e ex-trabalhadores da Volkswagen, entre os quais me incluo, que produziram na e para a empresa que agora os ofende que reajo com asco. Essa injustiça dói e não pode ficar registrada na história empresarial brasileira sem uma palavra de contestação, sem um gesto de defesa, ainda que tardio, frágil e inútil.


Consta do acordo assinado pela VW com o MP que ela não reconhece a ocorrência dos fatos alegados; ressalva absolutamente ineficaz, uma vez que a disposição de indenizar, sob qualquer forma, equivale a uma confissão tácita implícita.


Se é verdade que a VW decidiu abrir seu caixa para favorecer estelionatários, afirmo que, por lei, os dirigentes que assim procederam fizeram-no de forma ilícita e merecem por isso punição dos órgãos empresariais que lhes são superiores, bem como dos acionistas prejudicados, pois é defeso usar a receita da empresa de forma irresponsável, em prejuízo de seus acionistas.



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