VOLAIDE

12/10/2019



- Jacy de Souza Mendonça -




Removido para Comarca com maior volume de trabalho, procurei, de início, inteirar-me sobre os processos em tramitação. Chamou minha atenção o número de ações contra VOLAIDE, um descendente de poloneses de aproximadamente 2 metros de altura, razoavelmente gordo. Fiz o Cartório colocar todos os processos contra ele sobre minha mesa e comecei a ler um por um. Era uma montanha. Nenhum deles, porém, me convenceu de que se tratasse da figura de bandido com a qual ele era pintado. Em todos os atos pelos quais era acusado estava acompanhado por um amigo, o Alberto, que nunca foi encontrado. Declarou-se sempre inocente e atribuiu toda a responsabilidade ao Alberto. Decidi conhecer o denunciado. Um policial foi encarregado de trazê-lo ao meu gabinete onde manteve-se como sempre silente, cabisbaixo e respeitoso. Duramente inquirido por mim, reiterou sua inocência e a culpa exclusiva do Alberto.

Convencido de sua inocência, ou pelo menos não convencido de sua culpa, requeri ao Juiz o relaxamento da prisão provisória. Com o alvará de soltura em minhas mãos, comuniquei-lhe que estava em liberdade, mas tinha um compromisso comigo: trazer o Alberto, pois eu queria ouvi-lo.

Uns quinze dias depois, já não me preocupava com o assunto e, ao chegar ao fórum observei uma balbúrdia infernal frente à porta. Pelo guarda de segurança fui informado de que tudo decorria do fato de VOLAIDE ter tentado ingressar no fórum empunhando um revólver. Meu sangue subiu à cabeça. Minha fúria também. Reconheci que fora iludido por ele, que merecia dura reprimenda.

A hora do expediente estava se esgotando quando decidi não deixar o problema em minha cabeça. Determinei ao guarda que fosse buscá-lo no presídio. Nem bem tinha chegado e já comecei a destratá-lo. Como podia fazer aquilo, depois do que eu fizera por ele? Não sei quanto tempo durou meu sermão. Ele o tempo todo calado, de cabeça baixa, como era seu costume. Perecia não ter coragem de enfrentar-me. Exasperado gritei-lhe: - Fale, seu desgraçado!

Só então levantou a cabeça, olhou-me fixamente e me disse: - Doutor, o senhor não disse que eu deveria procurar o Alberto e trazê-lo para falar com o senhor? Ele não queria vir, então eu o trouxe na ponta do revólver...

Só me restou reincitar as tratativas até a expedição de novo alvará de soltura e, ao entregá-lo, dar-lhe outra ordem: - Vai embora desta cidade! Para o mais longe que puderes; e nunca mais voltes aqui!

Quem tem a imagem de delinquente, delinquente é e sempre será.

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