Vírus Wuhan - maior recessão desde 1929

14/04/2020


- ESTADÃO -


Centro de São Paulo esvaziado: pandemia derruba projeções para o crescimento econômico. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Coronavírus deve levar o mundo à maior recessão desde 1929

Fundo diz que a crise provocada pela pandemia é 'bem pior' do que a de 2008; projeção é de queda de 3% na economia global e de 5,3% no Brasil este ano

14 de abril de 2020 por Beatriz Bulla, correspondente , O Estado de S.Paulo

WASHINGTON — O mundo enfrenta uma crise de magnitude comparada à da Grande Depressão, de 1929, e o momento atual tem um nome dado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI): a Grande Paralisação. Segundo o FMI, o tombo atual é bem pior do que a crise de 2008 e pela primeira vez desde a década de 30 fará tanto economias avançadas quanto emergentes e países em desenvolvimento entrarem em recessão. 

Os efeitos econômicos da pandemia de coronavírus fizeram o fundo fazer revisões extraordinárias nas suas projeções. A expectativa dos economistas do FMI é de que atividade econômica mundial caia 3% em 2020. Para o Brasil, a previsão é de que a economia encolha 5,3% neste ano e cresça 2,9% em 2021.

Queda generalizada

Previsões globais para a atividade econômica em meio à pandemia de coronavírus


O Brasil terá um tombo maior e recuperação mais fraca do que a América Latina e Caribe. Em conjunto, países da região devem ter uma queda de 5,2% na atividade em 2020, com recuperação de 3,4% em 2021.

A diferença na intensidade da recuperação fica mais gritante quando o País é comparado com economias avançadas. A projeção de crescimento do Brasil em 2020 é 7,5 pontos menor do que a estimativa de janeiro. No caso das economias avançadas, a diminuição na projeção é de 7,7 pontos porcentuais, com expectativa de encolhimento de 6,1% da atividade neste ano. 

Em 2021, no entanto, essas economias — que incluem Estados Unidos, zona do euro e Japão, por exemplo — crescerão 4,5%, uma alta de 2,9 pontos na comparação com a perspectiva de janeiro. O Brasil, por sua vez, deve crescer 2,9%, um aumento de apenas 0,6 ponto porcentual na comparação com as estimativas do início do ano.

Os dados são parte do Panorama Econômico Global, relatório em que o Fundo divulga suas projeções. Desta vez, as 37 páginas tiveram lugar para agradecimento aos profissionais de saúde e defesa das medidas de distanciamento social como tentativa de conter a disseminação do vírus.

As perspectivas do FMI para o Brasil são menos otimistas do que as do mercado financeiro e bem diferentes das do governo. No último relatório Focus, a projeção mediana do mercado para o PIB deste ano era de retração de 1,96%. O governo revisou há pouco menos de um mês as projeções e, já em meio às consequências da pandemia, não previu queda no crescimento, mas estabilidade, com 0,02% de resultado no PIB. 

Se confirmada a projeção do FMI, o País viverá sua pior recessão desde 1901. A retração mais alta registrada na história recente foi uma queda de 4,35% na atividade econômica em 1990, ano do Plano Collor I. 

Desemprego em alta

Também em 2020, 14,1% da população brasileira deve estar desempregada, partindo de uma taxa no ano passado de 11,9%. Em 2021, os desempregados serão 13,5% da sociedade. O nível de desemprego no País será mais alto que o de qualquer nação das Américas do Sul e do Norte — os dados de desemprego na Venezuela não foram estimados pelo FMI. 

Mas o crescimento da massa de desempregados será bem maior nos Estados Unidos, por exemplo, que vivia a taxa mais baixa de desemprego dos últimos 50 anos, ao redor de 3,7%, e deve ter 10,4% da população sem trabalho em 2020. 

A renda per capita do Brasil também deve cair mais do que a renda per capita média mundial. Enquanto o mundo deve diminuir em 4,2% a renda por pessoa, no Brasil a queda será de 5,9%. Em 2021, a expectativa é de aumento de 2,2% na renda no País, que já não tinha muitos motivos para comemorar nesse quesito desde 2014.

Em janeiro, quando o coronavírus tinha mostrado seus efeitos na China e ameaçava países da Europa, o fundo estimou crescimento global de 3,3% em 2020 e 3,4% em 2021. Apesar da marcha lenta e da "estabilização com recuperação sem ânimo", como definiu em Davos a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, havia sinais positivos. Um deles era a trégua na guerra comercial entre China e EUA.

No relatório divulgado nesta terça-feira, no entanto, quando o mundo chega aos 2 milhões de casos confirmados de coronavírus e 120 mil mortes, o FMI fala em uma crise sem precedentes. "A perda cumulativa para o PIB global entre 2020 e 2021 pela crise da pandemia podem ser em torno de US$ 9 trilhões, maior do que as economias do Japão e da Alemanha combinadas", escreveu a economista-chefe do fundo, Gita Gopinath. 

Em meio à pandemia, a atividade econômica mundial deve cair 3,0% em 2020 e crescer 5,8% em 2021. Os EUA, país com maior número de casos e mortes no mundo, terão resultados de -5,9% neste ano e +4,7% no ano que vem. 

Na zona do euro, também severamente afetada com recordes diários de mortes ao longo do mês de março na Itália e na Espanha, o encolhimento previsto para 2020 é de 7,5%, com alta de 4,7% em 2021.

China e Índia devem conseguir resultado de crescimento positivo, mesmo em meio à recessão mundial. Os chineses devem crescer 1,2% neste ano — 4,8 ponto porcentual a menos do que as estimativas do início do ano — e 9,2% no ano que vem. A Índia deve crescer 1,9% em 2020 e 7,4% em 2021.

Piores cenários

Mesmo o resultado de 2020 e a recuperação estimada para 2021 podem ser revistos, pois a retomada depende de variáveis que ainda não se apresentaram, como o fim do contágio pelo vírus. Para que as projeções se concretizem, alerta o FMI, é preciso que a pandemia se dissipe ao longo do segundo semestre, permitindo a reabertura gradual das economias, e que ações políticas tomadas pelos países sejam efetivas para prevenir falências, perda de empregos e tensões financeiras. 

Caso contrário, outros três cenários mais sombrios são traçados na instituição. No primeiro deles, o Fundo considera que a luta contra a disseminação do vírus se alongue por 2020. Na segunda hipótese, a previsão é de que uma segunda onda de contágio mais branda ocorra durante o próximo ano.

A terceira possibilidade combina os dois cenários anteriores. A queda na atividade econômica global pode ser de 3 a 8 pontos porcentuais maior do que a já prevista nesses casos.

Outros fatores difíceis de estimar estão colocados no centro da discussão, como a eficácia dos esforços de contenção da crise, a extensão das interrupções de fornecimento, as mudanças nos padrões de gastos e comportamentais e os preços voláteis das commodities. "Os riscos de um resultado pior predominam", aponta o Fundo.

"Essa crise é como nenhuma outra. Primeiro, o choque é grande. Segundo, como em uma guerra ou crise política, há uma incerteza contínua e severa sobre a duração e a intensidade do choque. Terceiro, nessas circunstâncias há um papel muito diferente para a política econômica. Em crises normais, os formuladores de política tentam incentivar a atividade, estimulando a demanda agregada o mais rápido possível. Desta vez, a crise é em grande parte consequência da necessidade de medidas de contenção. Isto torna o estímulo à atividade mais desafiador e, pelo menos para a maioria dos setores, indesejável", escreveu Gina Gopinath.

Travessia

Os números foram elaborados depois de os economistas terem conversado com epidemiologistas, especialistas em saúde pública, em doenças contagiosas e com os que têm trabalhado nas terapias para a covid-19. Para os economistas, há duas fases para enfrentamento da crise. A primeira etapa é de contenção e estabilização seguida pela fase de recuperação. 

"Quarentenas, paralisações, e distanciamento social são críticos para desacelerar o contágio, dar ao sistema de saúde tempo para lidar com a demanda e comprar tempo para os pesquisadores tentarem desenvolver terapias e vacinas. Estas medidas podem ajudar a evitar uma queda ainda mais severa e prolongada da atividade econômica e preparam o terreno para recuperação", afirma a economista. 

Enquanto isso, o fundo defende que os formuladores de políticas garantam que os cidadãos tenham necessidades básicas atendidas e que empresas estejam aptas a retomar a produção quando a fase aguda da crise passar.  Nos países com grandes setores informais, como emergentes e nações em desenvolvimento, o FMI sustenta que programas de apoio devem ser expandidos e novos devem ser criados. 

A chave para atravessar a crise, segundo o Fundo, será a cooperação multilateral. Países devem compartilhar equipamentos e experiência para reforçar os sistemas de saúde pelo mundo e precisam garantir que países ricos e pobres tenham acesso imediato às terapias e vacinas, quando desenvolvidas.  

A comunidade internacional também deve providenciar assistência financeira aos países emergentes e economias em desenvolvimento, que não têm folga fiscal para pacotes de estímulo como os já adotados em lugares como os EUA, que projetou um socorro econômico de US$ 2 trilhões. 

Comércio

O volume de comércio mundial deve cair 11% em 2020. Em 2021, a recuperação é parcial, de 8,4%. A expectativa do fundo é de que as exportações dos países emergentes caiam 9,6% neste ano e cresçam 11% no ano que vem.

O preço das commodities deve recuar, com queda em 42% no preço do petróleo e de 1,1% nas commodities não relacionadas ao combustível. No ano que vem, o valor das commodities não ligadas a combustível deve cair mais 0,6%.

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