Uribe suspeito de espionagem?

Eduardo Mackenzie - Tradução Graça Salgueiro

08/06/2020




Um grupo de juízes da Corte Suprema de Justiça (CSJ) da Colômbia acaba de fazer um anúncio: que abrirá uma indagação preliminar “contra o ex-presidente Álvaro Uribe”. Essa afirmação teve um rápido impacto na Europa. Dois jornais importantes, Le Figaro, de Paris e La Tribune, de Genebra, baseados em um cabo da AFP, lançaram a notícia e inventaram um título grotesco: “L'ancien président Álvaro Uribe soupçonné d'espionnage” [1].

Uribe é, pois, mostrado no Velho continente, graças ao proclama da CSJ, como um “espião”, sem que as embaixadas da Colômbia nesses dois países se dêem ao trabalho de abrir a boca para rechaçar essa manchete difamatória.

Álvaro Uribe Vélez seria um “espião”? De quem, para quê, como, quando? Não se sabe nada. Nada de nada. O cabo da AFP não utiliza sequer essa palavra. Entretanto, os dois jornais criaram essa imagem. Em Bogotá, os inimigos de Uribe devem estar contentes. Todavia, o despacho da AFP diz algo que mostra o absurdo dessa acusação: “Se as provas forem encontradas, a Corte Suprema pode abrir um processo penal contra o ex-chefe de Estado”.

Esse é o ponto central: a CSJ embarca em uma nova “investigação” contra Álvaro Uribe sem ter provas nem indícios. O que o cabo da AFP insinua é que esse tribunal quer investigar o ex-presidente por puro capricho, pois carece de motivos e de provas para fazer isso. Alguém já pode imaginar a contra-demanda penal do advogado do ex-presidente contra os instigadores dessa “investigação”.

A CSJ, segundo a imprensa, apresenta a coisa assim: que abrirá essa investigação porque uma magistrada recebeu em seu gabinete “um texto anônimo”. Um anônimo! Quer dizer, um papel sem assinatura, sem nome do autor. Um papel no qual alguém diz que “os perfilamentos provavelmente ilegais que um setor do Exército realizava a jornalistas, congressistas e opositores em 2019 (acusação não comprovada nem sancionada judicialmente), acabaram nas mãos do ex-presidente Álvaro Uribe”. A AFP parece haver omitido esse detalhe do anônimo. Por que?

Em todo caso, o ex-presidente Uribe nega categoricamente toda essa história.

A conclusão de alguns é que estamos, de novo, ante mais um capítulo da turva guerra de guerrilhas que essa Corte promove, desde há anos, infrutuosamente, contra o ex-presidente Uribe. Porém, essa velha querela, essa velha campanha de fustigamento judicial que esse gabinete judiciário dirige não é conhecida na Europa. O leitor habitual vê essa manchete e fica com a idéia de que acabam de descobrir que na Colômbia um ex-presidente está ligado a um affaire de espionagem.

Esse leitor está longe de saber que essa mesma Corte é um dos organismos de justiça mais extravagantes e desprestigiados da Colômbia.

Wikipedia fala nos seguintes termos da famosa Corte Suprema de Justiça da Colômbia: “O Cartel da toga é um caso de corrupção judicial e política da Colômbia, no qual membros da Corte Suprema de Justiça da Colômbia, através de promotores com funções de vigilância, cometeram os delitos de suborno e concussão. Veio à tona no ano de 2017, e se considera um incidente grave de corrupção porque deixou em evidência uma trama de desvio da ação penal. Realizaram-se mais de 50 capturas e extradições”.

A “Enciclopédia livre” continua: “Segundo a Promotoria Geral da Nação, o então promotor Anti-Corrupção Luis Gustavo Moreno, o ex-presidente da Corte Suprema Francisco Ricaurte, o ex-magistrado Leonidas Bustos, o magistrado Gustavo Malo, o ex-magistrado auxiliar Camilo Ruiz e os advogados Luis Ignacio Lyons, Gerardo Torres, mais conhecido como ‘Yayo’ e Leonardo Pinilla, também conhecido como ‘El Porcino’, se encarregaram de alterar, desaparecer, desviar ou dilatar processos na CSJ utilizando informação privilegiada da Corte Suprema, a mais alta instituição da Justiça na Colômbia”.

O jornal El Tiempo, de Bogotá, foi ainda mais preciso. Em 7 de junho de 2018 escreveu: “A Promotoria assinalou que magistrados do mais alto nível (Francisco Xavier Ricaurte Gómez e José Leonidas Bustos Martínez) promoveram e dirigiram uma organização criminosa à qual integraram, entre outros, o ex-procurador anti-corrupção Luis Gustavo Moreno Rivera, extraditado em maio passado para os Estados Unidos; o advogado Leonardo Pinilla e o ex-magistrado Gustavo Malo Fernández”. Antes de rematar assim: “Esta organização à qual se chamou ‘o cartel da toga’ era ‘dedicada a cometer delitos indeterminados que afetaram a segurança pública e a administração pública, sempre relacionados com atuações que ocorriam na jurisdição penal’ e ‘dirigir processos’ em troca de vultosas somas de dinheiro”.

A CSJ, desde então, fez retoques em sua lista de magistrados mas não sofreu a remodelação de fundo que o país esperava. Por isso continuam os escândalos sobre a questionável ética de alguns de seus membros. O caso mais recente é o de Hugo Quintero Bernate, cooptado (de modo sombrio) em fevereiro passado. Quintero professa publicamente uma violenta hostilidade contra o ex-presidente Álvaro Uribe e anuncia que não se desistirá dos assuntos da sala penal que tenham a ver com o ex-chefe de Estado. O portal web El Expediente estima que a cooptação de Quintero “mostrou que ele chegou à Sala Penal da Corte para participar na patifaria contra o cabeça do [partido] Centro Democrático”. Com efeito, Quintero atuou em processos contra pessoas próximas ao ex-presidente Uribe, como Bernardo Moreno e María del Pilar Hurtado, e durante muito tempo se dedicou a insultar e difamar o ex-presidente desde as redes sociais.

A CSJ agravou seu caso ante a opinião pública quando deixou Jesús Santrich, um narco-traficante internacional, capo das FARC, escapar em maio de 2019, pedido em extradição pelos Estados Unidos.

Esse é o organismo judicial que quer a morte política do ex-presidente Uribe. Este, durante seus dois governos (2002-2010), desbaratou as FARC, desmobilizou os paramilitares de extrema-direita e desmantelou vários cartéis da droga.

Com a ajuda do “cartel da toga” e a conivência do ex-presidente Juan Manuel Santos e de seu Promotor de algibeira, dessa época, Eduardo Montealegre, a CSJ intensificou a caça às bruxas contra Uribe e chegou até a atacar e pôr na prisão injustamente membros da família do ex-presidente, como seu irmão Santiago Uribe e seu primo Mario Uribe, e um de seus ex-ministros, Andrés Felipe Arias.

Esta não é, pois, a primeira vez que a CSJ ameaça Uribe com uma “investigação preliminar”. O de agora é mais do mesmo: acosso político-judicial injustificado. Esse episódio começou com uma reportagem falsa de um jornalista do New York Times, Nicholas Casey, que decidiu que o comandante do Exército Colombiano havia expedido umas “new kill orders”. Casey nunca apresentou a prova do que dizia e fugiu há um ano do país. Agora a operação é re-dirigida contra o ex-presidente Uribe com o apoio da polêmica ONG Human Rights Watch (HRW), financiada em boa parte pelo milionário americano George Soros. Casey e Vivanco, o diretor de HRW, dizem que foram “ouvidos ilegalmente pela inteligência militar” colombiana e que as interceptações telefônicas foram entregues ao ex-presidente Uribe. E de novo: as provas são inexistentes. Porém, um grupo da CSJ acredita que um papel com umas linhas anônimas pode encher esse terrível vazio. Assim caminha a justiça na Colômbia.

[1] https://www.lefigaro.fr/flash-actu/colombie-l-ancien-president-uribe-soupconne-d-espionnage-20200603

Tradução: Graça Salgueiro

27 views

© Todos os Direitos Reservados - heitordepaola.online

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube