Uma articulação meia boca

Osmar José de Barros Ribeiro

25 de maio de 2020


Muitas vezes, sou acusado de rabiscar meus artigos sobre um mesmo assunto, com poucas variações. Confesso-me culpado desse quase crime. Em minha defesa, tenho uma explicação que, embora não justifique a falta de inspiração para dissertar sobre outras matérias, serve para aquietar meus escrúpulos: os meios de comunicação, em se tratando de política interna (e externa também) tem um alvo permanente: o presidente da República.


Se não, vejamos.


No início, seria apenas um concorrente folclórico, sem apoio político, sem dinheiro e sem seguidores. Depois, voltaram-se contra ele os institutos de pesquisa de opinião, as redes de televisão e os jornalões. Jamais chegaria ao segundo turno eleitoral e, se por um acaso lá chegasse, seria amplamente derrotado por qualquer dos concorrentes. Uma facada, quase fatal, aumentou sua popularidade e, surpresa das surpresas, ei-lo no segundo turno.


Aumentou a pressão midiática. Era um candidato tosco, grosseiro, populista. Mas terminou eleito com quase sessenta milhões de votos.


E veio a posse do eleito. Sem dúvida, um pouco diferente das demais. E não faltaram as críticas. A indicação dos ministros, sem levar em consideração a tradicional repartição entre os partidos políticos para firmar a tal base parlamentar, deu início à sabotagem no Congresso Nacional.


Seguiu-se a deserção dos aliados de ocasião. O Centrão, reunindo a esquerda e os descontentes com o governo federal, partiu para o ataque. E o Executivo, sem a célebre base parlamentar, defendia-se bravamente. Viu ministros serem convocados ou convidados para esclarecer suas ideias na Câmara dos Deputados, Medidas Provisórias de inegável valor foram ali deixadas de lado sem apreciação e até o Supremo Tribunal Federal (STF) passou a envolver-se, de forma descabida, nas atribuições do Poder Executivo.


E, nesse rápido, incompleto e despretensioso resumo, chegamos aos dias de hoje, com a população ameaçada pela pandemia do COVID-19. Cerca de dezoito dias antes do Carnaval, o Poder Executivo alertou governadores e prefeitos quanto ao perigo representado pelo vírus à população. Todos se fizeram de surdos. Afinal, os festejos significavam dinheiro entrando em seus cofres e quanto mais gente se acotovelasse nas ruas, melhor. Acontece que, calados cuícas e tamborins, tornaram-se evidentes os eternos problemas de saúde pública (falta de pessoal qualificado, de remédios e de aparelhos) e ficaram à mostra a criminosa ausência de planejamento nas ações de governadores e prefeitos, coisa antiga, de décadas, para não falar em séculos.


E, piorando uma situação já de si ruim, assistimos a maioria dos ministros do STF  limitando as ações do Poder Executivo, no mais das vezes à custa de cambalhotas jurídicas, além de imiscuir-se nas suas atribuições.


O somatório de ações que entravam e/ou retardam a solução de todos esses problemas e de outros que desconhecemos, levaram o chefe do Executivo a buscar uma aproximação com o Centrão, proporcionando a indicação de nomes para cargos no segundo e terceiro escalão dos ministérios. Sem dúvida, manobra arriscada que imporá uma observação cerrada sobre a ação dos indicados. Assinale-se, por pertinente, que a mesma mídia que antes acusava o governo de não se articular com o Congresso, hoje o critica por buscar sustentação junto a políticos com assento na Câmara.


A grande e indiscutível verdade é caber ao Centrão e à oposição ideológica, boa parte da responsabilidade (se não a maior) pelos atuais problemas brasileiros. Deixaram o presidente sem outra alternativa que não a de uma “articulação meia boca”.

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