UM VISITANTE ILUSTRE - II

Jacy de Souza Mendonça

09/07/2020


Meus visitantes retornaram de seus aposentos no hotel com roupas e calçados adequados. Caminhamos até o atracadouro da lancha do concessionário... outro susto! Na verdade, era uma velha canoa na qual um carpinteiro tinha construído uma precária cabine! Sem comentários, subimos. O piloto acionou o velho e lentíssimo motor e partimos para o encontro das águas, uma viagem que, graças àquele motor, durou uma eternidade. Ainda bem que havia a bordo um refrigerador com farto depósito de cerveja, bebida que sempre agrada aos alemães. Chegamos, enfim, ao nosso destino. O grupo, é claro, encantou-se com o fenômeno; nossa famosa lancha trafegou um bom tempo exatamente sobre a faixa do encontro das águas, deixando à direita um rio e à esquerda o outro. Fotos e mais fotos.

Cessada essa experiência, meu visitante disse que tinha lido algo muito interessante sobre igarapés e gostaria de conhecer um, se possível. O piloto da embarcação informou que era fácil pois, bem em frente ao atracadouro da lancha, havia um belo igarapé. Lá fomos nós, impulsionados lentamente pelo interminável tuque-tuque daquele terrível motor. Chegados lá, fomos informados de que a lancha era muito grande para entrar no igarapé. Passamos para uma canoa dirigida por um índio; como sói acontecer, muito calado. Estávamos em sete, o máximo que a canoa comportava.

Ao penetrar na floresta, pudemos apreciar a espetacular beleza da região. Imensas árvores nascidas da água; era impossível distinguir rio e floresta; nem sei como os olhos daquele índio conseguiam indicar-lhe por onde devia navegar. O silêncio só era quebrado pelo pio das aves, o ruído do motor e a batida dos remos de alguma canoa de índios que passavam por nós em total silêncio. Eles nos deram um espetáculo extraordinário: ia um na popa de uma canoa que era conduzida exatamente em cima do cardume; o outro, na proa, arremessava a tarrafa e a recolhia abarrotada de peixes. Tudo em silêncio absoluto. Meu visitante perguntou-me a que horas se dava o pôr do sol. Eu, que jamais me preocupara com essa questão, não quis revelar minha ignorância e respondi:

- Pelas 18 horas.

Neste exato momento ouviu-se um estampido no motor e o bote quase parou. Susto coletivo. Todos olhavam para mim. Na sua tranquilidade, o índio falou:

- Foi o pino da hélice que quebrou, mas eu tenho outro.

Tranquilizei o grupo. Depois de uma operação mecânica, o motor arrancou de novo e conseguimos retomar o passeio. Mas a paz não foi duradoura, pois ouviu-se novamente o estouro seguido da mesma parada. Aí o índio foi explícito:

-Tenho outro, mas o problema é que o barco está cheio demais e a hélice enrosca nas folhagens subaquáticas.

Aí perdi minha paciência. Retruquei-lhe que deveria ter falado isso antes de iniciarmos a viagem e que agora deveria calar-se, pois algum deles, que falava um pouco espanhol, podia entendê-lo e tornar o ambiente insuportável. Meu ilustre visitante teve uma ideia melhor:

- Por que não retornamos?

Fazia todo sentido, por isso transferi a pergunta ao piloto.

- Já ultrapassamos metade do igarapé, portanto é mais curto prosseguir, respondeu ele.

Informei o grupo e, em silêncio total, prosseguimos a viagem enquanto o sol se punha. Escurecia rapidamente e a sombra das árvores transformava a tarde em noite. Aí avistamos nossa velha lancha, que parecia agora um transatlântico todo iluminado. Subimos nela e iniciamos felizes o retorno ao hotel.

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