Suzanne Labin, a Joana d’Arc da Liberdade

Updated: Jun 25

Eduardo Mackenzie



“O comunismo hoje se constitui no mal supremo. Em qualquer lugar e sob qualquer circunstância que seus tentáculos apareçam, todos os homens que queiram salvar a civilização devem fazer frente contra ele de imediato e com alta prioridade. Se em algum lugar surgem abusos de outra natureza que devem ser corrigidos, então pode ocorrer uma de duas coisas: ou bem os resistentes autenticamente democráticos reunem forças suficientes para defender sua causa eles mesmos e, se conseguirem, serão abençoados. Ou são incapazes de tal proeza (…) e então, pior para eles, mais lhes valerá aceitar com paciência o mal que sofrem em vez de aliar-se com o demônio comunista, cuja intervenção engendraria um dano imensamente mais terrível. Se Somoza for derrocado por nós mesmos, excelente. Se for por Fidel Castro, choremos”.

A autora dessas linhas proféticas, escritas em junho de 1979, é a célebre ensaísta e combatente política francesa Suzanne Labin (1913-2001). Nascida em Paris (seu nome de solteira é Suzanne Andrée Devoyon), fez estudos superiores em Sorbone em química e física. Depois ingressa na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris e milita brevemente na Juventude Comunista. Em 1937, rompe com o marxismo e denuncia os processos de Moscou. Em seus artigos fustiga o culto à personalidade e a “divinização de Stalin”. Inspirada pela tese do dissidente Boris Souvarine, expõe as aberrações e crimes do comunismo.

Entre 1939 e 1940, a jovem ativista se dedica a reunir documentação sobre o regime soviético. Acaba sendo denunciada como espiã pela porteira do imóvel onde vive mas consegue fugir dois dias antes da entrada das tropas alemães em Paris, deixando seus bens, salvo suas duas maletas com a informação reunida. Durante a Ocupação ela faz parte, com seu marido, Edouard Labin, de um grupo de resistência gaullista (red del Musée de l’Homme). Em 1941, a ponto de ser presa pela milícia, foge com seu esposo para a Espanha e depois Argentina, onde conclui a redação de seu livro “Stalin o Terrível - Panorama da Rússia soviética”, o qual será publicado em 1948 em cinco idiomas, com um prefácio de Arthur Koestler.

Finalizada a Segunda Guerra Mundial, regressa à França. Sua notoriedade como lutadora anti-comunista já é internacional. Ela refuta o marxismo em todas as suas formas e participa, em 1950, do primeiro Congresso pela Liberdade da Cultura, reunido em Berlim. Em 8 de março de 1950, Suzanne propõe “criar um lar da cultura livre contra o obscurantismo stalinista”. Entre as personalidades que estão dispostas a patrocinar esse comitê figuram Albert Camus, René Char, Henri Frenay, André Gide, Ernest Hemingway, Sidney Hook, Arthur Koestler, Ignazio Silone e Richard Wright. Suzanne Labin declarará mais tarde: “Todos os membros do comitê responderam positivamente à nossa proposta. Nenhum formulou um desacordo. O projeto não se cristalizou por falta de financiamento, não por divergências ideológicas”.

Em 1957, com artigos na imprensa e um livro, “Entretiens de Saint-Germain”, ela milita, com Maurice Schumann e Jules Romains e outros intelectuais, a favor da proibição do Partido Comunista francês. Ela explica como em uma democracia é legítimo proibir os partidos totalitários. Por este livro ela recebe o Prêmio da Liberdade, outorgado por um jurado integrado por distinguidos universitários, jornalistas e intelectuais de renome como Ferdinand Alquié, Henri Brugmans, George Duhamel e Maurice Noel, entre outros. Frenéticos, os comunistas publicam nove artigos incendiários em L’Humanité e na imprensa soviética contra o livro de Suzanne Labin.

Alarmada com o que ocorre na China, ela faz, em 1959, uma viagem para recopilar testemunhos de vítimas do regime de Mao Tsé Tung, refugiados em Hong Kong e Macao. Esse será o tema de seu livro “A condição humana na China comunista”.

Em 1959, ela visita os Estados Unidos. Faz conferências e se entrevista com personalidades políticas. Explica os detalhes da “guerra política” que a URSS dirige contra a Europa. Em 1960, ela denuncia a instalação dos soviéticos em Cuba. Os senadores democratas James Eastland e Thomas J. Dodd, ex-procurador dos julgamentos de Nuremberg, admiram seu trabalho e fazem imprimir seu famoso Informe de Londres em milhares de cópias, sob o título “A técnica da propaganda soviética”, onde ela descreve as técnicas da propaganda comunista e suas infiltrações na imprensa e nos sindicatos.

Em um longo artigo muito documentado, sobre a economia soviética, publicado em he American Legion Magazine, em maio de 1963, que surpreende por sua precisão, ela conclui: “Hoje em dia, inclusive quando se jacta de seu dinamismo, a economia soviética só mantém seu atual nível patético alimentando-se como um verme dos Estados escravos do Leste Europeu que a Rússia tomou como botim da Segunda Guerra Mundial. Ao ver tais resultados ficamos atônitos ao observar que no mundo ocidental haja tantas pessoas de mentalidade sã - fora das de mentalidade equivocada - que se supõe estejam bem informadas, que ainda falam do ‘desafio econômico’ do comunismo ao mundo livre. Na realidade, a suposição de que a URSS poderia alcançar o nível dos Estados Unidos, ou inclusive o nível da Europa Ocidental em um futuro próximo, por qualquer meio que não seja a conquista ou o parasitismo colonial, é simplesmente delirante”.

Em março desse mesmo ano, o senador Dodd presta uma vibrante homenagem a Suzanne Labin no Senado e a qualifica como a “Joana d’Arc da Liberdade”. Ele faz inserir na memória do Senado o excelente artigo do jornalista e escritor Eugene Lyons, que descreve essa pequena mulher loura como “o opositor mais dinâmico, ubíquo e eficaz do comunismo no mundo livre”. Nesse texto, Lyons menciona as ameaças que ela recebe desde 1958 por sua participação no que L’Humanité denunciava como o “Código Civil Mollet-Lavin” e evoca a tentativa de seqüestro que sofreu em Nova Delhi quando ela consegue saltar de um carro que queria levá-la a força à embaixada soviética [1]. O senador Dodd redige mais tarde o prefácio do folheto dela “Embassies of subversión”. Dois anos depois, o sub-comitê do Senado distribui de novo o texto The Techniques of soviet propaganda.

Em julho de 1965, Suzanne Labin publica, no Bulletin du Centre national d’information, nº 143, um artigo cujo título é “Quem é o intervencionista em Santo Domingo”. Ele começa assim: “Quando nos apresentam a ação norte-americana em Santo Domingo como uma intervenção nos assuntos internos de um Estado soberano, recebemos a informação equivocada. O intervencionismo encarnado, o intervencionismo universal, o intervencionismo sistemático de nosso tempo é o comunismo. É Waldeck-Rochet na Francia, é Togliatti na Italia, é Castro em Cuba, é Mao Tse Tung e Brezhnev em todos os lugares”.

Em outro parágrafo ela precisa: “Abandonar Santo Domingo ao comunista Juan Bosch sob o pretexto de que seu corpo nasceu em Santo Domingo, enquanto que toda sua pessoa está condicionada por Moscou, é optar pelo suicídio do mundo livre por amor ao formalismo. Os guerrilheiros vietcong, que exportam para o Vietnã do Sul o despotismo que reina no Norte, são mais intervencionistas, mais estrangeiros, que os soldados americanos que correm para defender a independência de um país do qual partirão se tiverem êxito”.

Seu conhecido livro “O drama da democracia”, onde ela analisa o fenômeno totalitário e as outras correntes anti-democráticas, será publicado em 1973, ao mesmo tempo, na França e Estados Unidos.

Incansável e obstinada, ela publicará cerca de 26 livros sobre diferentes aspectos do sistema comunista e de suas técnicas de influência e infiltração. Um célebre gaullista e ex-ministro da Justiça, Edmond Michelet, falou dela como “nossa magnífica e única Suzanne Labin”. Em 1980 ela volta a escandalizar o “progressismo” de salão ao publicar um artigo sobre Pinochet, “ver o fascismo onde não está e não vê-lo onde está”, e um livro (“Chili: Le crime de resister”) e outro de apoio a Israel em 1981 (“Israël. Le crime de vivre”).

Em 1982, Suzanne Labin assina o manifesto do Comitê de Intelectuais pela Europa de Liberdades, de Alain Revennes, que denuncia o totalitarismo soviético e julga como “inadmissível” a presença de ministros comunistas no primeiro governo de François Mitterrand. Esse ato intensifica a operação de censura contra ela, na qual participam tanto socialistas como comunistas. Essa gente procura tirá-la da vida política e intelectual. Suas críticas vigorosas ao socialismo marxista e seus rebrotes - o terrorismo, o pacifismo e os terceiro-mundismo -, são insuportáveis para seus inimigos. Em 1985, ela fica sem editor e é obrigada a auto-financiar a impressão de seus livros, apesar de que quase todos os seus prognósticos, alguns dos quais haviam sido vertidos em seu estudo sobre Stalin, haviam sido confirmados pelos fatos.

Como o rancor comunista é de grande baixeza, um jornalista escreve, sete anos depois da morte dela, uma versão “anti-imperialista” do projeto de um comitê pela cultura livre. Em um livro intitulado La CIA en France, 60 ans d'ingérence dans les affaires françaises”, o autor, Frédéric Charpier, reprova Suzanne Labin por haver reunido 2.400 dólares para financiar, em 1960, a exitosa Conferência Internacional sobre a Guerra Política, que reuniu 400 delegados (sindicalistas, parlamentares, escritores, exilados de países comunistas) durante três dias em Paris [2].

Sem dinheiro e sem apoio oficial, Suzanne Labin visitou inúmeros países, fez parte de várias redes anti-comunistas internacionais e esteve em contato com inúmeros críticos do sovietismo, desde a esquerda até a direita, desde a Europa Ocidental até os Estados Unidos, América Latina e Ásia. Eugene Lyons escreveu: “Qualquer que fosse o desafio - Hungria, Cuba, Katanga, China comunista, Vietnã - ela estava à frente do combate para frear a maré comunista”. Nem todos os livros dela foram re-editados mas AbeBooks e Amazon oferecem uma dúzia de seus títulos e a biografia “L'étonnante Suzanne Labin”, de Elie Hatem. Suzanne Labin recebeu o título de doutor honoris causa da Faculdade de Ciências de Londres.

Graças ao ativismo incansável de valentes como Suzanne Labin, uns no setor governamental, outros como ela desde a sociedade civil, sem mencionar os grandes dissidentes russos como Soljenitsyne e Bukovski, a Europa Ocidental, em especial França e Itália, não caíram durante a Guerra Fria nas mãos de Moscou, que organizava esse colapso utilizando sobretudo a via eleitoral. O nome de Suzanne Labin faz parte do panteón onde brilham lutadores aos quais o mundo livre deve tanto, como, entre outros, Victor Serge, Walter Krivitzky, Arthur Koestler, Jean Valtin (Richard Krebs), Victor Kravchenko, Boris Souvarine, George Orwell, Sidney Hook, Anton Ciliga, Annie Kriegel, Jean-François Revel e Richard Pipes.

Notas

[1] - Congressional Record: Proceedings and Debates of the Senate, Congressional record, Senate, 4 mars 1963, pp. 3479-3482.

[2]-  https://www.wikiwand.com/fr/Suzanne_Labin

Tradução:

Graça Salgueiro Notas do editor: 1) Existe um livro dela traduzido por Carlos Lacerda: Em Cima da Hora:




2) Não encontrei em toda internet uma foto dessa heroína. A que peguei é de um livro seu. A única que achei.

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