Sobre a beleza e a obra de arte

29/01/2020


- IPOJUCA PONTES -



A ideia de que “a beleza salvará o mundo” veio à mente de Dostoivski quando o escritor russo, ao entrar na Catedral de Dresden, cidade alemã, se deparou com a imagem da Madona Sixtina, comovente obra de Rafael, o pintor italiano renascentista (impressão mais tarde descrita com arrebatamento nas páginas do seu Diário de um Escritor, publicado entre 1873/1874 no jornal O Cidadão).


Como se sabe, a frase medular está expressa no romance O Idiota, cânone da literatura Ocidental, cujo personagem principal, o Príncipe Michkin, consubstancia o humanismo cristão do autor – cristianismo, de resto, segundo Dostoiévski, inerente à alma redentora do povo russo. Tal como Platão, o escritor associava o belo ao bom (tudo o que é belo é bom, reverberava Platão, que tinha um conceito ideal da beleza).


Já Aristóteles - que esquadrinhou a ciência, a retórica e a poética para a eternidade - buscou, no trato da beleza, a unidade dentro da variedade. Para ele, a integridade, a proporção e a clareza seriam essenciais à obra de arte e às coisas. Diferentemente de Platão, o filósofo pensava na beleza como contraponto à feiúra e ao caos. Em gêneros como o drama e a tragédia, que convivem com a predominância da fatalidade, erros, equívocos e sofrimento, Aristóteles tinha como necessária a presença do caos traumático para se chegar à catarse.

(Dado curioso: na sua clássica “Retórica”, Aristóteles assinala que uma mulher bela e bem proporcionada, mas baixinha, pertence apenas a categoria do “gracioso”. E vejam só: até hoje, os jurados dos concursos de beleza seguem, talvez sem saber, os ensinamentos do grego).


O conceito de beleza começa a mudar com o advento do iluminismo (que, como já se disse, veio para confundir e obscurecer tudo). Assim, Emmanuel Kant, o filósofo alemão, encara a beleza como um fenômeno subjetivo, visto que ela nunca se encontra em si mesma, mas, tão somente, nos olhos de quem a vê. O David de Michelangelo, por exemplo, pode ser considerada uma obra de arte feia pois, para os olhos de quem a vê, a formosa escultura tem o pau pequeno e os olhos vazados.


Com o advento do modernismo e a insurgência da arte conceitual (onde o que importa é a “atitude mental”) a mistificação e o engodo em torno da beleza e da obra artística atingiram os cornos da lua, em especial a partir da aparição em cena de Marcel Duchamp, francês que muitos admitem transitar entre o gênio e a besta. Duchamp, movido a álcooal e incursões pelo pó, depois de sacanear toda a Paris, se mudou para New York, um solo prodigioso para sua arte-deboche. Lá, ele enviou para júri de concurso promovido pelo Museu do Brooklin um urinol branco comprado numa loja de material de construção. Para sacanear a patuleia, garantia estar incorporando o conceito do “ready made” à sua arte-deboche.


No Brasil, o engodo da arte conceitual também ganhou figura e vez. Em 1988, tornou-se célebre o caso de um artista que levantou o prêmio oficial do Salão Nacional de Belas Artes apresentando como trabalho artístico uma volumosa pedra de gelo – o que lhe deu direito a bolsa de estudo no exterior paga em dólar.


Outra personalidade excêntrica, transnacional, Frans Krajcberg, consagrado ativista do ambientalismo selvagem, foi tido como gênio criativo por cortar troncos dos manguezais e toras de madeiras calcinadas, expondo-os, em seguida, como obras de arte. Ganhou até prêmio das mãos do Zé Serra, o comunista de triste figura.


Por sua vez, no auge do “teatro de vanguarda”, joia da contracultura, grupos cênicos paravam a representação e anunciavam ao público apavorado “um minuto de Roda Viva”, espetáculo dirigido por Zé Celso, o Falso Louco, quando então passavam a agredir a “plateia burguesa” com gritos, palavrões, ameaças e odor de merda.


Com efeito, de há muito a obra de arte, admirada universalmente por povo, nobreza e clero, deixou de expressar a beleza preconizada por Platão, Aristóteles e Dostoiévski. De fato, hoje, nos dias que correm, nas mãos de farsantes, patifes, drogados ou alcoólatras desesperados, embusteiros ideologizados e ativistas a serviço da subversão planejada, a obra de arte tornou-se uma “ferramenta” poderosa para degradar a própria beleza, acanalhar a vida e desestabilizar a “anima” do mundo, fazendo da existência humana um charco de lama, confusão, dor e aflição.


Pior: a partir do século XX, com a predominância da “indústria cultural” reproduzindo ad infinitum o pretenso objeto artístico, a obra de arte perdeu sua aura, sua magia e autenticidade. Como escreveu o insuspeito Theodor Adorno, contrariando um parceiro da famigerada Escola de Frankfurt, Walter Benjamim, a IC passou a representar uma grave ameaça para a sobrevivência da beleza e das artes, visto sua existência “excluir as massas da fruição artística genuína e servir apenas para acentuar a decadência da cultura e ampliar o progresso da incoerência bárbara” (em Dialética do Conhecimento, Zahar Editora, Rio, 2006).


É preciso dizer mais?


A chamada indústria cultural, em geral, vive de explorar (melhor seria dizer, cultuar) a degradação, a violência, a perversidade, a baixeza, tendo como álibi o pretexto de se testemunhar a realidade circundante. Na Alemanha, um analfabeto triste e drogado, Reiner Werner Fassbinder, cultor do “lesbianismo lúbrico” (ver As Lágrimas Amargas de Pedra von Kant). foi confundido pela crítica (comunista, é claro) como um “grande cineasta”.

E nos Estados Unidos, Quentin Tarantino, um ex-balconista de loja de vídeos, sujeito malvado que se delicia dirigindo filmes estilosos de acentuada violência, e cujos personagens são todos cruéis e doentios, virou o cineasta padrão de Hollywood, meca da desvairada e rendosa indústria da barbárie.


E o que dizer da “indústria cultural” da Globolixo, que se apropria de bilhões de reais dos cofres do Erário para produzir dezenas e dezenas de filmes “de lazer” grosseiros e chinfrins? E o que dizer de suas novelas carregadas de intermináveis baixarias, sangradouro de vulgaridades e perene manancial da pior subliteratura folhetinesca a explorar cenas de adultérios, fraudes, estupros, roubos e assassinatos sem fim que brutalizam dia e noite corações e mentes de boa parte da (indefesa) população brasileira?


Sobre isso escreveremos depois.

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