Sem princípios, sem dignidade, sem poder e sem poder de dissuasão

Resumo Diário MEMRI # 198 | 19 de setembro de 2019



- Yigal Carmon * -



Pessoas sem princípios e dignidade não entendem que estas são as fontes de poder tangíveis que têm efetivo poder de dissuasão. Pessoas que evitam projetar tais elementos estão condenadas a serem dissuadidas por aqueles com dignidade e princípios - ainda que odiosos e deploráveis – como o Irã, a Rússia e a China, até chegar ao nível da Turquia. Estes países tratam os EUA com constante desprezo verbal e provocações reais, pois sabem que eles podem atacar os EUA com impunidade. (1)


Os ataques do dia 14/9 às usinas de petróleo da Arábia Saudita demonstram bem essa tragédia americana. Os alvos táticos imediatos eram sauditas, mas poderiam muito bem ter sido americanos, como o CENTCOM [Comando Central dos EUA] que sofreria um nível semelhante de danos.


A despeito das melhores intenções na tentativa de evitar guerras para os EUA, aquele país inevitavelmente enfrentará ambas, "guerra e vergonha". O Presidente Trump perguntou à senadora Lindsey Graham "Como a entrada no Iraque deu certo?" Era de se esperar que o homem que recolocou o busto de Winston Churchill no Escritório Oval [da Casa Branca] consideraria o que aconteceu com a  política de apaziguamento de Chamberlain e qual foi o custo para os EUA alguns anos depois. Mas, mesmo o entendimento de que, em um mundo onde os EUA não são mais os policiais da ordem mundial, a economia americana também irá sofrer e isto está aquém das qualificações de um grande magnata do setor hoteleiro e imobiliário.


Os ataques de 9/14, corretamente declarados pelo Secretário de Estado Michael Pompeo como "um ato de guerra", são uma humilhação severa, um golpe contra os EUA, sinalizando um fracasso americano em vários níveis:


Primeiro, houve um fracasso de dissuasão. Os iranianos correram um risco calculado o qual acabou sendo provado como correto. Eles se consideram regionalmente militares em igualdade de condições aos EUA e, através de seus representantes, também fora daquela região. As autoridades militares norte-americanas demonstraram de forma clara seu receio do poder iraniano, bem como da capacidade de retaliação sobre os alvos do CENTCOM e, portanto, tornaram vazias as palavras de Trump, que se vangloria de que os EUA são o poder militar mais forte do mundo. Na verdade, é o Irã que realmente está impedindo os EUA de efetuar qualquer retaliação. O Irã conta com sua capacidade, já comprovada, de atuar na arena local, enquanto seus resultados têm um efeito cascata a nível global.


Em segundo lugar, foi um fracasso dos serviços de inteligência dos EUA (militares, NSA, CIA e outros). Aparentemente, não houve qualquer aviso prévio sobre uma operação que deve ter contado com dezenas de participantes envolvidos no processo de tomada de decisão, no planejamento secreto e em seus preparativos concretos. Desde maio de 2019, tendo por base fontes iranianas disponíveis de forma pública [open source], o MEMRI emitiu vários avisos estratégicos sobre as ameaças iranianas de realizar tais ataques.


Em terceiro lugar, o bem-sucedido ataque iraniano representou uma falha tecnológica americana, pois nem um único míssil de cruzeiro ou drone foi interceptado.  O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Jawad Zarif, ridicularizou os EUA, twitando: "Talvez [os EUA] estejam envergonhados porque seus mais de US$ 100 bilhões em armas não foram capazes de interceptar o fogo iemenita".


Quarto, e este é o fracasso mais perturbador, é que este foi um caso de falha política - ninguém no governo dos EUA esperava um ataque iraniano tão direto e ousado. É verdade que o Irã já recorreu a intermediários para garantir que poderia negar sua participação em eventos deste tipo, mas agora a liderança iraniana pode avaliar de forma realista a hesitação e a aversão norte-americana a conflitos, chegando à conclusão de que o Irã poderia arriscar a efetuar um ataque, sem se preocupar com a possibilidade de uma forte retaliação norte-americana. Considerando o efeito global causado por este ataque ousado, até agora o risco calculado pelos iraniano provou ser uma aposta de resultado positivo.


Por que os ataques?


Os ataques de 14/9 não têm nada a ver com a guerra no Iêmen; eles são relativos às sanções [econômicas] impostas pelos EUA. O Irã sente-se dolorosamente espremido, e tenta aliviar o efeito das sanções aplicando a força - por enquanto apenas contra aliados americanos e interesses dos EUA. O Irã continuará a agir assim até que as sanções sejam significativamente reduzidas, desde que considere que a penalidade por esses ataques é nula ou suportável. Isso não é ciência galáctica, e requer apenas um nível básico de compreensão e não necessita de informações secretas.


O que pode ser esperado agora?


1. Nenhuma resposta dissuasória americana contra o Irã deve ser esperada . Sabendo que o governo dos EUA não apoiará militarmente os sauditas, os porta-vozes e líderes da KSA se abstiveram de acusar explicitamente o Irã, imitando os líderes dos Emirados Árabes Unidos, os quais se abstiveram de apontar um dedo acusatório contra o Irã após os ataques aos seus navios-petroleiros em junho de 2019, mesmo após a cumplicidade iraniana haver sido comprovada.


2. Baseado na mesma lógica do Irã, mais ataques iranianos ocorrerão no futuro como resultado das contínuas sanções [econômicas] dos EUA, e não como resposta a quaisquer reações da KSA, dos EUA, etc. aos ataques iranianos.


Visão 20/20

Nenhum norte-americano pode ganhar com a humilhação dos EUA pelo Irã. Qualquer presidente no futuro terá que enfrentar a ameaça iraniana para restaurar o poder de dissuasão, os princípios e a dignidade dos Estados Unidos, embora a um preço muito mais alto. Os poderes do mal não podem ser controlados pela auto-abnegação norte-americana. Esta lição deveria ter sido assimilada desde o século passado. Com toda a aversão justificada à Arábia Saudita, devido ao assassinato de Khashoggi, os crimes sauditas empalidecem em comparação com os mega assassinatos cometidos pelo regime dos aiatolás em sua luta contínua e desenfreada por uma ditadura islâmica. A ameaça real é a busca do Irã pelo domínio regional e pelas armas nucleares. Idealmente, os candidatos presidenciais deveriam priorizar estas considerações de longo alcance; realisticamente, isto não vai acontecer.


* Yigal Carmon é o presidente e fundador do MEMRI [Instituto de Pesquisa sobre a Mídia do Oriente Médio]


Notas:

1. A perda de dignidade americana ficou em evidência quando Trump agradeceu aos iranianos por não haverem derrubado um avião tripulado dos EUA que voava ao lado do UAV norte-americano destruído. Não é de se admirar que os iranianos se tornaram ainda mais convencidos da sua superioridade moral e da justiça da ideologia da sua Revolução Islâmica.

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