RECUERDOS

26/09/2019



- Jacy de Souza Mendonça -





Depois de mais de dois meses fora de circulação por orientação médica e incapacidade laboral, quero voltar aos poucos, iniciando por velhas lembranças da vida de Promotor de Justiça de pequena Comarca.

Naquele foro era assídua a presença de dois causídicos. O primeiro, um homem calmo e prudente, profissionalmente muito preparado, capaz de comunicar-se, oralmente ou por escrito, com muita elegância. Não era natural da cidade nem de suas imediações; não sei como veio parar ali. Constava que fora Prefeito de outro município. O segundo não tinha feito o curso de Direito. Aproveitara-se da lei que regulamentou a profissão de advogado e do dispositivo que autorizava, a título precário, seu exercício a quem demonstrasse que, algum tempo atrás, havia atuado ad hoc como procurador no foro. Eram os chamados rábulas. Não sabia datilografar e escrevia muito mal o português. Sobre Direito... é bom nem comentar. Cuidava normalmente de inventários (àquela época eram todos obrigatoriamente judiciais) onde dificilmente surgiam conflitos e onde os honorários eram convidativos e seguros. Não sei como, ele monopolizava os inventários da Comarca.

Certo dia, conversava eu com o Juiz de Direito manifestando grande interesse por uma obra jurídica que eu não tinha e não encontrava nas livrarias e sebos. Depois de um preâmbulo de gentilezas, interveio o rábula afirmando que ele tinha a obra e colocando seu exemplar à minha disposição, bastando para isso ir buscá-lo em seu escritório.

Encantado com a oferta e o convite, no dia seguinte lá estava eu. O prédio era um casarão velho, disputando com outros em ruínas. O escritório limitava-se a uma pequena saleta, na qual havia uma mesa típica de cozinha da época e uma cadeira de palha. Sobre a mesa, um amontoado de papéis, lápis, borracha e outras bugigangas, revestidos por uma poeira secular. Nenhum cliente.

Ultrapassadas as gentilezas iniciais de praxe, levantou-se e abriu a porta que dava acesso à peça lindeira. O impacto não foi pequeno. Eram livros empilhados do chão ao teto, não deixando espaço para ninguém entrar, a não ser baratas e cupins. Os volumes eram cobertos por uma poeira que fazia inveja a Herculano e Pompeia, na qual transitavam festivas aranhas.

Sob este cenário, escutei-o dizendo feliz e calmamente: está aí, doutor, o problema é só achar... A isso ele chamava de biblioteca...

14 views

© Todos os Direitos Reservados - heitordepaola.online

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube