PIO XII

10/03/2020


- Jacy de Souza Mendonça -



A última crônica dessa série foi publicada em 15.10.2019. Depois, a fragilidade de uma saúde envelhecida suplantou a inspiração e a motivação. Volto à liça, hoje, motivado por uma exigência existencial, um dever inexorável perante a Verdade e a Justiça. Minha iniciação escolar coincidiu com a eclosão da 2ª Guerra Mundial. Cursava eu, então, a primeira série do curso primário do colégio marista da cidade do Rio Grande, no Rio Grande do Sul, sentado à primeira fila, com uma cadeira vazia a meu lado; de repente, ela foi ocupada por um novo colega. Estranhamente, ele não falava, espanto que perdurou até que eu percebesse que isso se devia ao fato de ele não saber falar (a língua portuguesa). Balbuciava, muito mal, poucas palavras elementares. Assumi, por isso, comigo mesmo, o compromisso de auxiliá-lo. Lembro-me de estar lhe ensinando a pronunciar e escrever palavras como lápis, borracha e pasta. Apesar dessas dificuldades, nosso relacionamento foi muito bom e perdurou até o fim do ano letivo, quando seu pai o transferiu para uma escola pública da cidade, por ser gratuita. A partir daí mantive informações sobre ele à distância até o início do curso colegial, quando, por recomendação dos professores de nossas escolas, nos transferimos em grupo para Porto Alegre, com o propósito de ingressar na Universidade, então inexistente em nossa cidade. Agora a separação foi total: ele buscava a Medicina e eu o Direito; ele em uma escola pública e eu no colégio dos Irmãos Maristas; eu em uma pensão e ele na Casa do Estudante. Formado em Medicina, ele voltou para o Rio Grande, trabalhou em uma instituição social da Brigada Militar, onde atendia às necessidades de muitas viúvas de policiais deixadas sem recursos para sobreviver e desenvolveu seu projeto pessoal de criar uma entidade para protegê-las – a APLUB, sobre cujo sucesso não necessito discorrer. Dr. Rolf Udo Zelmanowicz. Foi dele que recebi as informações de que agora me valho. Judeu-cristão, seu pai, de origem polonesa, tomou consciência, muito cedo, dos rumos do nazismo implantado por Hitler na Alemanha e adquiriu a certeza de que a única forma de salvar-se com a esposa e os dois filhos seria fugindo. Isso não era fácil e só lhe foi possível graças à ajuda da Igreja Católica, muito particularmente de Pio XII que, protegido pelo silêncio, auxiliava judeus-cristãos; silêncio que lhe valeu a pecha de simpatizante de Hitler. Vedados os preferidos caminhos de fuga para os Estados Unidos e o Canadá, restou-lhe aceitar a oferta de quatro dos 3.000 vistos de entrada no Brasil feita por Getúlio Vargas, que desejava a participação de sangue europeu na miscigenação do povo brasileiro. A busca da salvação era tão premente que não titubeou e, com intensa ajuda de parentes e amigos, conseguiu meter-se em um navio de carga e trazer a família. Rio de Janeiro e São Paulo lhe ofereceram muitas dificuldades, por isso optou por uma pequena e tranquila cidade portuária de 50.000 habitantes, localizada ao sul do Brasil: o Rio Grande. Assim veio sentar-se a meu lado. Em 2011, já realizado na vida, municiou sua filha Marianne, advogada e jornalista, com as informações necessárias ao registro histórico de sua saga, do que resultou a publicação, em Porto Alegre, de um opúsculo, do qual me presenteou um exemplar, sob o título de A Lista do Papa Pio XII, no qual escreveu: gostaria de salientar o fato de que milhões de pessoas foram assassinadas nos campos de concentração do nazismo, sorte que poderia ter sido – e não foi – a dos quatro membros de milha família e, por isso, sou muito reconhecido ao Papa Pio XII, e estou continuamente coletando dados para restabelecer as verdades sobre ele e mudar a opinião pública tão maliciosamente construída. Um depoimento vivido que destrói a difamação contra Pio XII e exalta sua atuação inspirada pela caridade cristã. Merece ser lido. O silêncio, que serviu como escudo protetor, foi também a fresta por onde penetraram os acusadores desonestos; e mesmo assim ele se manteve em silêncio até o fim da vida.

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