O VÍRUS

18/04/2020


- JACY DE SOUZA MENDONÇA -




O novo coronavírus surpreendeu os médicos, pois eles não dispunham, como não dispõem, de meios para evitá-lo ou eliminá-lo. As pesquisas científicas que poderiam abrir caminho para essa prevenção ou esse extermínio são muito lentas, enquanto o micro-organismo mórbido opera em velocidade máxima. Médicos e pesquisadores científicos já jogaram a toalha: reconhecem sua impotência, ao menos momentânea, ante o inimigo invisível e socorrem-se da estratégia de esconder-se dele, aguardando a descoberta da arma adequada para enfrentá-lo. Enquanto isso, ocultam todas as prováveis vítimas dentro de suas casas para evitar contágio, alimentados pela esperança do possível achado da cura. Reconhecem, porém, que, quando todas as vítimas potenciais estiverem assim protegidas, terá desaparecido a sociedade e, por outra via, tornada impossível a vida humana.


O mundo médico-científico rende-se assim humilhado e os políticos procuram ocupar o espaço por eles deixado vazio. Como tudo em política, essa ocupação é tentada em meio a uma infinidade de opiniões conflitantes, bem e mal-intencionadas, que embaçam o processo da pesquisa, preocupados que estão apenas com a próxima eleição.


Tal quadro joga-nos em uma situação ridícula, na qual os políticos derramam à esmo sua multiplicidade de opiniões conflitantes e assumem, sem base científica, a tarefa de prescrever (no lugar deixado pelos médicos) questionáveis terapias. Por vezes acertam, por vezes erram e nessa loteria existencial, os beneficiados pelo acerto festejam o resultado (com justa razão), mas centenas de milhares perdem silenciosamente a vida em torno deles. O duro resultado é que, em um clima de angustiante incerteza, todos e cada um de nós temem ser o próximo a ser ceifado traiçoeiramente pelo vírus.


Em criança, vivi situação assemelhada. O inimigo era, então, o bacilo de Koch e a bruxa fatídica era a tuberculose. A lista de mortos diariamente pela doença era também interminável. Lembro-me de que, ao lado da casa em que morávamos, uma família com sete filhos foi dizimada; a faina começou pelas crianças, mas matou também os adultos. Meu pai vivia apavorado, pois éramos oito irmãos, com poucos recursos para a prevenção, auxiliados apenas, generosamente, por um médico amigo. Meu pai temia até que o bacilo atravessasse as paredes que nos separavam e viesse realizar entre nós sua tarefa nefanda. O problema só foi resolvido e o morticínio estancado quando os cientista descobriram o antibiótico (a sulfa, a penicilina e, principalmente, a estreptomicina). Por certo, fala-se ainda hoje naquela doença, mas não mais como pandemia.


Ora, parece que estamos trilhando agora o mesmo caminho com o coronavirus: aguardando um fármaco salvador. Enquanto não for descoberto, seremos testemunhas oculares de uma gigantesca tragédia da humanidade, competindo com a dos dinossauros, isso se antes, em vez de testemunhas, não formos vítimas dela.

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