O OUTRO LADO DA VERDADE

Jacy de Souza Mendonça 16/05/2020




Uma senhora ajuizou ação de desquite (ainda não havia divórcio no Brasil). Casara-se há muitos anos com Manuel, um português, e tiveram dois filhos. Ele, como fizera em Portugal, cultivava hortaliças que levava todas as manhãs para a feira. O irmão, a quem, com o crescimento do negócio, convidou para vir de Portugal e morar com eles, passou a acompanhá-lo no plantio e na distribuição.


Certo dia, os dois não voltaram da feira. Ela, temendo uma desgraça, procurou-os inutilmente em hospitais, Delegacias de Polícia e cemitérios; aguardou notícias, mas tudo em vão. Durante dez anos, teve que trabalhar para criar e educar os filhos, enfrentando naturais dificuldades para administrar o pequeno patrimônio, em uma época na qual o exercício do pátrio poder era, por lei, exclusivo do cônjuge varão. Enfim, decidiu-se a enfrentar o desquite. Como o marido se encontrava em lugar incerto e não sabido, fez-se a citação por edital. Essa costumava ser apenas uma formalidade sem qualquer efeito, mas, para espanto geral, dentro do prazo estabelecido, o réu protocolou sua contestação. Nela, repetia o histórico de felicidade dos primeiros anos de casados com o nascimento dos filhos, o sucesso profissional, o convite ao irmão, o acolhimento dado a este e o crescimento econômico resultante da cooperação fraterna. Eram muito amigos, trabalhavam com o mesmo vigor, partilhavam despesas e resultados. Em uma das viagens à feira, Manuel encheu-se de coragem e explicou ao irmão que, por insistência de sua mulher, era forçado a solicitar-lhe que procurasse outra forma de vida e outro lugar para morar. Ela lhe contara não suportar mais o assédio sexual do cunhado, do qual fugia. Mesmo quando buscavam distração no carteado ele, por baixo da mesa, não cessava de boliná-la. O irmão tudo escutou e, depois de longo silêncio, recuperado do choque, contestou, que a verdade era outra e tão dura que jamais pensara em poder expô-la: ele não assediava a cunhada, ao contrário, era constantemente por ela assediado e precisava valer-se de mil subterfúgios para evitá-la, pois jamais ousaria cometer tal injustiça, tal infâmia, com o irmão que tão carinhosamente o acolhera. O pobre Manuel sentiu-se assim imprensado entre dois afetos: o profundo amor pela mulher e a não menos profunda afeição fraterna. Seu irmão reconheceu, no entanto, que, chegadas as coisas àquele estado, só lhe restava não retornar para a casa e voltar para Portugal no dia seguinte.


Vendida a quitanda, dividido o resultado, despediram-se sem ódio nem afeto, mas jamais trocaram qualquer correspondência. Manuel vendeu a carroça e o burro que a tracionava e alugou um quarto, não tão perto de sua casa que pudesse ser descoberto, nem tão longe que não pudesse acompanhar, mesmo à distância, o crescimento dos filhos que tanto amava. Até que leu no jornal o edital de citação, em razão do qual precisava relatar a verdade em juízo.


Na audiência, o magistrado tentou, de todas as formas possíveis e imagináveis, reconciliar o casal, sem sucesso. Ele não conseguia deixar de acreditar no irmão; ela não podia aceitar a dúvida que se instalava sobre sua honorabilidade...


Todas as moedas têm duas faces.

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