O GRUPO DOS ONZE

Jacy de Souza Mendonça

25/06/2020




Fui designado para atuar como Promotor em um inquérito policial militar complexo: uma montanha assustadora de papéis. Resumo o fato sem citar nomes, que incluíam até um ex-Governador do Estado.


Segundo os documentos e depoimentos colhidos, o ex-Governador coordenava um grupo de onze pessoas, cujos nomes, qualificação e endereço estavam ali relacionados, das quais recebia informações constantes e às quais transmitia ordens e informações. Cada uma dessas onze pessoas tinha como seu contato e sob seu controle outras onze, com as mesmas características; por sua vez, esses últimos onze supervisionavam outros onze, estruturação que se repetia ad infinitum. Daí resultava um sistema de extraordinária eficiência e rapidez para a veiculação de informações, instruções e ordens.


O inquérito que recebi era a reunião de um número infindo de inquéritos menores. Informaram os militares que presidiram esses pequenos inquéritos que o objetivo final de seus participantes era a tomada do poder político por via revolucionária.


Estudei os dados e ofereci a denúncia. Fiz questão de não tirar e não guardar cópia de nada. Como não acompanhei a instrução do processo crime, confiada a outros Promotores, não me recordo de nenhum nome ali envolvido (não quis memorizar).


Passado algum tempo do oferecimento da denúncia, em um início morno de primavera gaúcha, estava no jardim de minha casa, todo sujo de terra, cuidando de algumas plantas, quando minha esposa veio me informar que tinha chegado, em um carro oficial, um militar, todo coberto de medalhas distintivas, que desejava falar comigo. Esquivei-me que não estava em condições higiênicas de receber quem quer que fosse. Sugeri que ela lhe pedisse a indicação de dia hora e local onde eu iria encontrá-lo. Respondeu-me que já tentara isso, sem nenhum sucesso; o militar informava estar de passagem rápida, insistia em falar comigo, compreendia minha dificuldade, mas não abria mão de ver-me naquele momento, quaisquer que fossem as circunstâncias. Sem alternativa, fui encontrá-lo como estava: de bermudas, chinelos, sem camisa, sujo, sem condições sequer de apertar-lhe a mão. Apresentou-se. Era o General que, naquele momento, presidia o Superior Tribunal Militar, em Brasília. Lera meu trabalho e desejava, por isso, falar comigo.


A conversa foi tão curta quanto as circunstâncias recomendavam. Não me lembro nem do nome dele. Quis cumprimentar-me e elogiar-me. Limitei-me a dizer-lhe que, como tivesse atuado apenas no cumprimento do meu dever funcional, não merecia cumprimentos, menos ainda agradecimentos.


Mais tarde, a Lei da Anistia encerrou, entre outros, aquele processo que certamente jamais teria fim, bastando para isso que cada um dos acusados indicasse a quantidade de testemunhas de defesa que a lei lhe permitia.

37 views

© Todos os Direitos Reservados - heitordepaola.online

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube