O coronavírus e a economia

15/03/2020


- O ESTADO DE SÃO PAULO -


Ao contrário da recessão de 2008/2009, há pouco que os bancos centrais possam fazer


Affonso Celso Pastore *, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2020


O coronavírus (covid-19) impôs à economia mundial um choque de oferta. A defesa contra a propagação do vírus consiste em colocar em quarentena áreas geográficas extensas, como na China, ou a totalidade do país, como na Itália, e como a produção industrial dos países está integrada nas cadeias globais de suprimento, ela se contrai. Contrariamente ao que ocorria em crises de balanço de pagamentos ou na crise bancária e na recessão mundial de 2008/09, contudo, há pouco que os bancos centrais possam fazer. A política monetária pode amainar a propagação desse choque sobre a demanda, porém ela é impotente para reduzir a intensidade de choques de oferta e, em adição, as taxas de juros de curto e de longo prazos nos EUA, Europa e Japão estão muito próximas de zero.


Taxas de juros próximas de zero ao redor do mundo produziram efeitos. Um deles foi o aumento do endividamento e da alavancagem das empresas, o que eleva o risco de crédito, que cresce quando a economia é submetida a um choque. Esse é o caso dos EUA. Talvez, por isso, mesmo sabendo que a política monetária não é o instrumento adequado para corrigir choques de oferta, o Federal Reserve tenha decidido baixar em 50 pontos a taxa dos fed-funds. Pode ser que ajude a manter as condições financeiras, mas a reação das Bolsas logo em seguida ao anúncio é uma evidência clara da percepção de que o Fed não tem munição suficiente para evitar o pânico.


Com as taxas reais de juros permanecendo baixas por extenso período, ocorreu forte alteração na composição da carteira de ativos, elevando a demanda por ações, com o S&P500 tendo atingido os níveis mais elevados dos últimos 50 anos. Inflada pelas taxas reais de juros persistentemente baixas, havia uma bolha que se desinflou com a ocorrência da crise desencadeada pela covid-19.


Com o aumento da aversão ao risco, capitais saem de todos os países dirigindo-se aos EUA, levando à queda das taxas das treasuries e à valorização do dólar. No Brasil, também havia na Bolsa uma valorização distante dos fundamentos e ela desabou, mas a maior reação veio através da taxa cambial, que se depreciou bem mais do que nos demais países, incluindo as commodity currencies que, por isso, são mais afetadas pela desaceleração da China. O aumento da demanda por hedge e das saídas de capitais é um atestado de que há uma percepção de risco que deriva da gravidade da crise combinada à nossa fragilidade fiscal e ao precário apoio político às reformas. Como as intervenções no mercado de câmbio têm eficácia limitada, o Banco Central pode e deve suavizar a volatilidade, mas não evita a depreciação.


Ainda que a indústria brasileira seja pouco integrada nas cadeias globais de suprimentos, ela é afetada pelo “choque de oferta”, que não atinge apenas a indústria, sendo inevitável que se propague através da demanda. Por isso, o Banco Central do Brasil pode e deve baixar a taxa de juros. Porém, além da queda da taxa básica de juros é preciso atuar para preservar a liquidez e a funcionalidade dos mercados diante do pânico que se instalou. Em situações como esta, no Brasil e no mundo, há uma enorme necessidade de liquidez que somente pode ser dada pela ação coordenada dos bancos centrais e dos respectivos Tesouros, incluindo os bancos centrais que têm pouco espaço para reduzir a taxa de juros, como o BCE.

No Brasil, acima de tudo, é preciso que as autoridades mantenham a calma e não sucumbam à tentação de jogar fora tudo o que já foi conquistado em nome de encontrar soluções fáceis.


Teremos de enfrentar o problema de conter o avanço da epidemia, o que requer recursos que terão de ser mobilizados, mas isso não quebra o País. Há um problema humanitário que tem de ser tratado com seriedade, e que não põe em risco a consolidação fiscal. Não consigo entender a “lógica” (se é que pode ser chamada de lógica) dos que propõem uma suspensão do teto de gastos. Um país cuja taxa de investimento se mantém no menor valor atingido no auge da recessão, esta somente deverá ser elevada, qualquer que seja a taxa de juros, quando for removido o risco de que os gastos primários voltem a crescer, e o país tenha se livrado do risco de uma volta à dominância fiscal#.


Do espírito público dos políticos depende a manutenção da austeridade fiscal, que aliada à ação proativa do Banco Central e do Tesouro reduz os riscos, garantindo o rumo da agenda de reformas.



* EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA A.C. PASTORE & ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

https://www.google.com/search?q=domin%C3%A2ncia+fiscal&rlz=1C1AVSA_enBR501BR501&oq=domin%C3%A2ncia+fiscal&aqs=chrome..69i57&sourceid=chrome&ie=UTF-8

# DOMINÂNCIA FISCAL é a situação em que o Estado não consegue gerar receita, por meio de impostos ou contribuições, suficientes para financiar seus gastos. Nesse caso, é necessário imprimir papel. A receita da impressão do papel, chamada de senhoriagem, fecha a conta.

(https://www.institutomillenium.org.br/artigos/114053/)


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