O AVIÃO

Jacy de Souza Mendonça

29/06/2020




Em determinado momento de nossa história política, o governo brasileiro resolveu ocupar a região amazônica não da forma empírica como vinha sendo feito, mas seguindo princípios técnicos. Grandes empresas foram intimadas a colaborar, implantando ali projetos agroindustriais. A compensação viria através do imposto de renda: a cada unidade monetária projetada, o investidor poderia aplicar mais três, abatendo do imposto de renda devido o valor correspondente. O projeto precisava ser aprovado pela SUDAM, órgão público criado especialmente para isso, ao qual cabia também a fiscalização da execução. Sauer apaixonou-se pela iniciativa, contrastando com a resistência dos administradores alemães da empresa, que insistiam no fato de que sua finalidade era fabricar e vender veículos automotores. Nada mais. Fiquei envolvido nos fatos por estar encarregado de acompanhar a aprovação do projeto na SUDAM.


No dia em que começaram a ser instalados os projetos, a legislação foi mudada... coisas de Brasil! A relação, que era de 1 x 3, passou a ser de 1 x 1. Os alemães ficaram ainda mais céticos. Com a credibilidade em zero, as coisas ficaram difíceis para as empresas cuja matriz era sediada no estrangeiro. Outro problema decorria da reação negativa da imprensa nacional e internacional, influenciada pelos defensores da natureza virgem, intocada; todos os projetos pressupunham a derrubada de algum trecho da gigantesca mata e aí começavam as resistências. Uma árvore abatida era motivo de protestos.


Quem aplaudiu efusivamente a iniciativa foram os corretores de glebas amazônicas. Um deles, em especial, revelou seu sangue de bandeirante: era proprietário de um pequeno avião que ele mesmo pilotava, levando empresários para escolherem, do alto, o terreno de seu agrado. Voava tantos minutos para o norte, tantos para o sul, etc., e assim estava demarcada a área. A chegada ao local, por terra, na mata cerrada, era tarefa para gigantes; apesar disso, a prosperidade do negócio fez com que ele trocasse o velho aparelho por outro mais moderno, prosseguindo sua atividade e seu rápido enriquecimento.


A localização visual, na região, era, de início, impossível. Em cima, só o azul do firmamento; em baixo, só o verde das copas de árvores. Até os rios, tão frequentes por ali, ficavam ocultos sob o copado. O roteiro dos pilotos era demarcado pelas fazendas já instaladas, pelo tipo de gado e pelas palhoças. Quantas vezes tive que informar o piloto sobre a espécie de choças e gado, para que ele se localizasse!


O corretor, quase todos os dias, fazia suas viagens com potenciais compradores, enfrentando as tempestades típicas da região. Um dia a infelicidade bateu-lhe à porta. O avião caiu na mata. Morreu ele e sua comitiva. Eu, assíduo frequentador dessas viagens, não estava no aparelho naquele dia...


O inquérito revelou que ele só tinha brevê para pilotar o avião antigo e que ignorava a tecnologia avançada do novo. Pilotava assim mesmo, desprezando os recursos modernos. O plano de voo que apresentava às autoridades a cada decolagem estava pronto em um bloco, totalmente assinado, por antecedência, por um piloto credenciado...


Por isso morreram todos.

Mais uma tragédia amazônica, entre as tantas que desbravaram a maior floresta do mundo.

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