Não foi golpe!

12/11/2019


- Graça Salgueiro -



Morales com a bandeira do México durante o vôo de fuga para aquele país - Foto: Marcelo Ebrard, via Twitter, via Reuters

A esquerda tem o péssimo hábito de rotular tudo o que é legal e constitucional de golpe, inversamente aos inúmeros atos que eles têm praticado em seus países. Assim foi com as deposições legais de Fernando Lugo no Paraguai, Manuel Zelaya em Honduras e Dilma Rousseff no Brasil. O mais recente veio da Bolívia, onde Evo Morales se viu forçado a renunciar.


De todos esses casos, o mais aberrante é o do cocalero boliviano que agora posa não só de vítima mas de mártir do preconceito. Vamos fazer uma retrospectiva para exemplificar melhor. Evo assume o primeiro mandato, eleito democraticamente, em 2006. Em setembro de 2008, uma série de episódios violentos que resultaram em vários mortos, feridos e presos inocentes que permanecem até hoje encarcerados, nas localidades de Cobija e El Porvenir, em Pando, o principal responsável pelo que ficou conhecido como o “massacre de Pando” foi Evo Morales que, apesar das evidências gritantes de sua responsabilidade foi inocentado pela UNASUL e CIDH e nunca pagou por esses crimes.


Em 2009, em uma decisão coordenada pelo Foro de São Paulo já realizada pela Venezuela, Honduras e Equador, a Bolívia decide fazer uma nova Constituição onde o objetivo era se perpetuar indefinidamente no poder. Na Bolívia definiu-se que o presidente só poderia exercer dois mandatos. Encerrada a Assembléia Nacional Constituinte, marcou-se novas eleições e Evo começou seu segundo mandato, de 2010 a 2014. Entretanto, a justiça comprada pelo cocalero lhe permitiu concorrer pela terceira vez, como se fosse a segunda, alegando que o primeiro mandato não valia porque era de “outro estado”.


Em 2015 começa o terceiro mandato e em 21 de fevereiro de 2016 ele chama a um referendum para novamente modificar a Constituição de modo a que lhe permitisse finalmente a re-eleição indefinida, mas perde rotundamente. Não satisfeito, ele recorre fraudulentamente ao Pacto de San José, alegando que “limitar os mandatos ia contra os direitos humanos” e se candidata com a anuência da Comissão de Direitos Humanos da ONU.


Em 20 de outubro de 2019 realizam-se as eleições e com 87% das urnas apuradas Morales está na frente mas não o bastante para ganhar no primeiro turno. Imediatamente ocorre um apagão, param o escrutínio e 30 horas depois retomam, onde Morales cresce exponencialmente e ganha no primeiro turno. Cabe aqui lembrar que esse é um método já fartamente utilizado, primeiro na Venezuela com Hugo Chávez por mais de uma vez e depois por Nicolás Maduro, e em 2014 aqui no Brasil com a Srª Rousseff. Quem não lembra do apagão, onde ela perdia e depois que a energia voltou ela passou com larga folga para o primeiro lugar?


Diante dessa fraude gritante, o povo foi às ruas protestar e exigir que se realizasse um segundo turno. Morales não aceitou e insistiu na vitória fraudulenta, na repressão e numa violência bem característica do seu espírito criminoso, deixando um saldo de 5 mortos, centenas de feridos e uma enormidade de presos. Começam a aparecer caixas cheias de atas que foram escondidas em residências e a prova de que toda a base de dados foi comprometida, inclusive confirmado por uma empresa particular que já havia feito uma auditoria.


Diante da pressão do povo que não arredava o pé das ruas, ele decidiu pedir uma auditoria com técnicos da OEA, cujo resultado demonstra claramente que sim, houve fraude por parte do governo. O povo exige a renúncia de Morales e ele repele com grupos de choque, muitos vindos da Venezuela e provavelmente também de Cuba, como foi confirmado dias depois pela Polícia.



A Polícia recusa-se a agredir a população e até os setores mais leais ao cocalero, como a central operária e grupos indígenas, pedem sua renúncia. Vendo-se encurralado diante de provas tão rotundas e da resistência de um povo que se recusa a ser lesado mais uma vez, Morales convoca novas eleições, mas, diante da fraude, a lei determina prisão para todos os membros do Tribunal Eleitoral e inabilitação do candidato, fato que não ocorreu.


Morales exigiu aos militares que reprimisse o povo, mas por lei, para que isso aconteça é necessário a assinatura do presidente e de todo o seu gabinete, coisa que ninguém quis acatar. No sábado à noite a Polícia ficou amotinada e declarou nas ruas seu apoio ao povo enquanto pediam a renúncia do ditador.


Ao ver que já não contava com nenhum apoio Morales foge para Chapare, lugar onde se cultiva coca não apta ao consumo humano e apresenta sua renúncia, que foi recomendada pelo Comandante das Forças Armadas, general Williams Kaliman. Ato contínuo também renunciam seu vice, Álvaro García Linera, os presidentes da Câmara e do Senado, o ministro da Defesa, Javier Eduardo Zavaleta López, e o Comandante Nacional da Polícia, Yuri Calderón. A ex-presidente do Tribunal Supremo Eleitoral, María Eugenia Choque, foi presa enquanto tentava fugir, disfarçada de homem.


Com o presidente deposto e toda a linha sucessória também, quem constitucionalmente poderia assumir a presidência da República? Restou à senadora opositora do partido Unidad Demócrata e segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Áñez, ocupar a presidência interinamente, até que se convoquem novas eleições.


O mundo livre e civilizado aplaudiu a saída de Morales do poder, entretanto me pareceu injusto com o povo boliviano que esse criminoso saísse do país impune. Encurralado e com medo, ele pediu asilo político no México, do comparsa no Foro de São Paulo, Manuel López Obrador, que mandou um jatinho da Força Aérea Mexicana ir buscá-lo em La Paz, custeado com os impostos de um povo que sequer foi consultado se queria o criminoso boliviano em seu país. O presidente eleito da Argentina quis dar guarida ao camarada, denunciando que ele foi vítima de um golpe mas Mauricio Macri não permitiu, inclusive não liberou o espaço aéreo argentino para que ele pudesse fugir para o México. Equador e Peru também não liberaram seus espaços aéreos para a fuga do tirano.


Enquanto escrevo esse artigo assisto pela CNN em Espanhol a chegada dele no aeroporto mexicano, que desce junto com García Linera. Obrador estava lá para recebê-lo e disse que aceitou o pedido “por questões humanitárias”. Logo após descer da nave, Morales fez um breve discurso se dizendo “injustiçado, perseguido” e que “seu único pecado foi ter nascido índio”. Ainda agradeceu ao Brasil por ter liberado o espaço aéreo para a sua fuga. Na Bolívia continuam as manifestações, agora das “viúvas” de Evo que, em nenhum momento lembrou de pedir a seus “súditos” que aceitassem os fatos e mantivessem a calma e a paz.


Em 2002 Chávez também renunciou mas ficou apenas 3 dias na ilha Margarita, voltando depois triunfal para só sair do poder morto. Rogo a Deus que isso não ocorra na Bolívia porque aquele bravo povo não merece! Só nos resta agora torcer para que, com a mesma coragem que apeou do poder um tirano sanguinário, os bolivianos o levem à Corte de Haia para ser julgado por seus incontáveis crimes.




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