GÊNESE DO COMUNISMO NA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL - do livro “O Século do Nada” de Gustavo Corção

- Anatoli Oliynik - ENVIADO POR EMAIL -

Relato de Gustavo Corção sobre a gênese do comunismo na Igreja Católica brasileira (Excerto extraído por Anatoli Oliynik do livro “O Século do Nada” Ed. Record, 1973).


“No dia 2 de abril de 1945 o mundo inteiro estava eletrizado com a notícia do fim da guerra. Eu estava eletrizado com a notícia do fim da guerra. Eu sentia um mal-estar indefinível. À noite recolhi-me mais cedo, e já estavam todos dormindo quando o telefone tocou. Atendi. Uma voz de mulher estrangeira gritou no meio de um vozeirão:


- Os russos estão entrando em Berlim!


Fiquei silencioso. E ela repetia com estridência:

- Os russos estão entrando em Berlim!


Inexplicavelmente respondi-lhe:


- Merda!


E no quarto, diante de minha mesa de trabalho e do crucifixo, depois de uma breve

oração deitei a cabeça nas mãos e repeti para mim mesmo como quem geme:


- Os russos estão entrando em Berlim!


Uma certeza medonha e brutal apunhalou-me: perdêramos a guerra. Ou melhor,

perdêramos a paz.


Eu sentia o punhal: arremataram-se a mais hedionda conjuração de traições. E

começava, naquele dia de festividade monstruosamente equivocada, uma era de

inimagináveis imposturas. Incompreensivelmente, depois de tantos sofrimentos, de tão

desmedidos esforços, de tão maravilhosos heroísmos, os povos de língua inglesa,

derrotados por si mesmos, do liberalismo e pelo democratismo, entregavam ao Minotauro

comunista dez vezes mais do que a parte da Polônia em razão da qual entrara o mundo

em guerra. Singular e cínico paradoxo: para cumprir um tratado e para evitar a partilha da

Polônia, a Inglaterra e a França aceitaram finalmente o ônus de uma guerra mundial

contra o pacto germano-soviético; agora, depois da vitória sobre o nazi-comunismo,

entregava-se a Polônia inteira ao comunismo que também foi vencido, e que só

comparece entre os vencedores no quinto ato da comédia de erros graças a um aberrante

solecismo histórico, que nem sequer podemos imputar à habilidade e à astúcia do

principal beneficiado. A impressão de uma direção invisível nessa comédia de erros

impõe-se irresistivelmente.


Eu ouvia os foguetes. Milhares de bons cidadãos, de excelentes pais de família, de

fidelíssimos antinazistas, abraçavam-se, congratulavam-se uns com outros, convencidos

de que finalmente as ‘democracias’ alcançavam a vitória. E eu perguntava: que vitória?”


Terminada a guerra, voltávamos à rotina da vida. E nosso grupo dia a dia aumentava com famílias inteiras que chegavam, e de amizades que se multiplicavam na proporção de combinações de objetos 2 a 2, sem jamais nos passar pela idéia a mais tênue suspeita de que, dentro de uns poucos anos, um furação passaria sobre o mundo com devastação maior do que a todas as guerras somadas, e então veríamos os padres abandonarem as batinas, as freiras esquecerem os votos e os modos, e os bispos se transformarem em diretores, secretários, presidentes e vice-presidentes de uma organização burocrática incumbida de publicar falsas notícias e difundir doutrinas e esperanças ainda mais falsas.


Uma noite, creio que em 1948, estava eu a ouvir um disco de Mozart quando alguém bateu à porta. Era Fernando Carneiro.


Em matéria de doutrina social tínhamos divergências porque Carneiro estendeu mais o que pôde seu crédito às esquerdas. Eu, que já havia pago meu pedágio à estupidez humana nessa matéria, não sentia a menor disposição de “voltar ao vômito”, mas estávamos longe de supor , de pressentir o que ainda deveríamos sofrer neste capítulo.


Naquela noite, Carneiro pediu água, e no meio da sala, com o copo na mão e o lenço na outra, parecia um mágico que se preparava para tirar coelhos do lenço ou do copo. Em vez de coelho, tirou o Padre Lebret.


- Você já ouviu falar no Padre Lebret?


Eu não ouvira falar, e carneiro continuou:


- Olhe, o negócio é assim: Aristóteles, Santo Tomas, Lebret.


Fiquei meio alarmado, mas não pestanejei. E Carneiro explicou-me quem era esse frade dominicano que se dedicara a levantamentos sociológicos entre os pescadores da França, que fundara um movimento chamado “Economia e Humanismo” e que agora viera estudar o Brasil ...


“Naquele tempo poderíamos saber, se estivéssemos acompanhando de perto a evolução da esquerda católica e da infiltração na ordem dominicana, se conhecêssemos a história da revista ‘Sept, ‘que morrera de gripe espanhola’, mas logo ressuscitara em ‘Temps Présent’, revista apresentada por Mauriac [Françóis Charles Mauriac (1885-1970), escritor francês] e outros como sendo totalmente diversa de Sept (condenada por Pio XI), et cependant [e dependente] da mesma cepa, se conhecêssemos as escapadas de Maritain [Jacques Maritain (1882-1973), filósofo francês] na revista Vendreti, poderíamos saber que o Pe. Joseph Lebreti em 1948 trazia ao Brasil os primeiros germes do ‘ativismo desesperado’ de que nos cuparemos no último capítulo deste livro, ou os primeiros vírus do esquerdismo católico que vinte anos depois produziria o escândalo dos dominicanos que em São Paulo transformaram o Convento das Perdizes em reduto de guerrilheiros”. (os grifos são meus).


i Louis-Joseph Lebret, O.P. (Le Minihic-sur-Rance, Bretanha, 1897 – Paris, 20 de julho de 1966), conhecido no Brasil como Padre Lebret, foi um economista e religioso católico dominicano francês, criador do centro de pesquisas e ação econômica "Economia e Humanismo", em 1942, e de um grande número de associações para o desenvolvimento social [leia-se Comunismo], em vários países do mundo, dentre os quais o IRFED - Institut International de Recherche et de Formation, Éducation et Développement, atual Centre

International Développement et Civilisations- Lebret-Irfed, em Paris.


Foi um dos introdutores da preocupação com o desenvolvimento global dentro da Igreja Católica, entendido como desenvolvimento da pessoa e dos grupos sociais [Na realidade, comunização da Igreja Caólica]. Chamou a atenção da Igreja e do mundo ocidental para as questões do subdesenvolvimento e da necessidade de solidariedade com os países pobres. Atuou, sobretudo no Líbano, Senegal, Benin, Costa do Marfim, Brasil, Colômbia e Venezuela e Vietnam do Sul. Com François Perroux, com quem colaborou, foi pioneiro de uma nova bordagem do planejamento territorial, relacionando as questões do meio físico-geográfico aos problemas do desenvolvimento.


Participou da redação de documentos conciliares como o Gaudium et Spes, e foi o inspirador da encíclica Populorum Progressio (1967), durante o pontificado de Paulo VI.

O Padre Lebret na Colômbia, em 1958.

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