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Desafio Aceito: No, You Can't

- HEITORD DE PAOLA - MÍDIA SEM MÁSCARA - 12 DE JANEIRO DE 2011 -

Alguém sugeriu que o nome correto do País deveria ser Estados Desunidos da América, de tal forma os interesses entre os Estados e as Regiões são díspares. Mesmo entre os Conservadores há divergências imensas. Nem todos defendem o livre comércio, p. ex., uma das máximas capitalistas: ele não interessa aos produtores agrícolas dos Estados produtores. Querem subsídios, igualzinho aos nossos e aos Europeus. Um pecuarista texano diverge de um produtor agrícola do Meio Oeste. Estados produtores de petróleo exigem preços mais caros da Gasolina, prejudicando os demais. Dentro de um mesmo Estado existem divergências inconciliáveis. A Louisiana é um exemplo, entre muitos: o Cajun Country, a Oeste, a área mais rica, é absolutamente diferente dos Distritos do Sul, negros e mais pobres. Mesmo na cidade de New Orleans o contraste entre as áreas divididas pela Canal Street são gritantes. Outro é o Estado de Utah, berço da expansão Mormom, onde ao contrário do que muitos pensam predomina a religião Batista. Sufocados por um cerco comercial para abandonar a prática da poligamia e ser aceito na União, o ressentimento com Washington é imenso – e a prática só foi abolida oficialmente, pois nas comunidades mais religiosas ainda é aceita veladamente.

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DESAFIO ACEITO NO YOU CAN'T
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Mas existem princípios morais e religiosos e uma noção arraigada de liberdade, que não conhecemos aqui, que une a todos e quando estas são atacadas, a cascavel dá o bote! Esta união é expressada pelo Pledge of Allegiance, a saudação à bandeira repetida diariamente nas escolas: ‘I pledge allegiance to the Flag of the United States of America, and to the Republic for which it stands: one Nation under God, indivisible, with Liberty and Justice for all’ (Eu juro lealdade à Bandeira dos Estados Unidos da América e à República que ela representa: uma Nação, sob Deus, indivisível, com Liberdade e Justiça para todos).



As transformações socialistas trazidas por Obama estão tentando acabar com a América original, aquela que conquistou o Oeste com um revólver numa das mãos e a Bíblia na outra, dos implacáveis cowboys que, quando cansados dos tiroteios, assentavam-se na terra, constituíam família, regiam-se por códigos morais estritos, tementes a Deus e dispostos a defender suas propriedades com as armas que penduravam atrás da porta, mas jamais as deixavam de todo. Talvez o principal ícone desta América tenha sido John Wayne, tanto no cinema como em sua vida real, pessoal e pública. E um dos seus símbolos maiores, o Alamo [[1]], em San Antonio, Texas, onde em 6 de março de 1836 (a localidade ainda se chamava San Antonio de Béxar) mais de uma centena de defensores foram massacrados pelas tropas mexicanas do General Santa Anna. O entusiasmo que levou inúmeros Americanos ao Alamo, incluindo aventureiros como David Crockett, e ao massacre, fez ressoar o estribilho famoso: Remember the Alamo! A vingança veio em 21 de abril, quando em San Jacinto, com um exército melhor preparado comandado por Sam Houston [[2]] as tropas mexicanas foram devastadas no horário da tradicional siesta, em 18 minutos!


Quando do traiçoeiro ataque japonês a Pearl Harbor e do ataque às torres do WTC, este estribilho se fez ouvir novamente: remember the Alamo, onde perdemos uma batalha, mas ganharemos a guerra!


Sendo um movimento espontâneo não se pode precisar um local e tempo para o nascimento do Tea Party [[3]], mas certamente começou com os imensos comícios da campanha de Sarah Palin. Já comentei anteriormente a importância dos salões paroquiais locais no processo de decisão política: O centro da vida americana é a Igreja. Os salões paroquiais são importantes centros de decisão informal. Enquanto as crianças vão para a escola dominical, os adultos decidem. Personagens que não faltam são o Juiz, o Promotor, o Xerife e o Administrador ou Supervisor Escolar. Todos geralmente são eleitos com mandato fixo.


Glenn Beck percebeu a importância e o potencial daqueles grassroots [[4]]. Em 9 abril de 2009 apoiou e compareceu a um rally contra impostos a ser realizado exatamente no Alamo, o que deu um significado importantíssimo após a derrota dos mais profundos ideais Americanos de liberdade em novembro de 2008. No seu programa daquele dia Beck anunciou: ‘Eu tenho que ir lá. Eu queria ir porque era o Alamo, um símbolo. Eu queria ser parte daquele momento, o povo se manifestando pacificamente. Eu precisava captar aquele retrato da América, importante para ser mostrado a todo o País’. No Alamo simbolicamente se reuniria o povo americano e seus princípios e tradições, novamente derrotados por um inimigo momentaneamente superior para preparar uma nova San Jacinto.


O movimento foi tomando força e crescendo em números desde então e com a aproximação das Eleições Parlamentares em novembro vários candidatos apoiados pelo Tea Party tinham vencido as primárias, deslocando Republicanos da velha guarda, homens from within the Capital Beltway [[5]]. Beck convocou um grande encontro nacional – Restoring Honor - para 28 de agosto de 2010 em Washington, D.C., no Lincoln Memorial, no mesmo local e dia em que 47 anos antes Martin Luther King Jr fez seu famoso discurso I Have a Dream. O comício foi um sucesso com quase um milhão de pessoas que protestavam contra os excessos da administração Obama, apesar de ter sido condenado por ONGs e os Democratas como um movimento racista, o que é uma mentira como comentou (comunicação pessoal) Donald Hank, proprietário do site Laigle’s Forum: existem muito mais racistas no Partido Democrata, que acreditam que negros e hispânicos precisam ser ajudados pelos brancos porque não podem crescer por si mesmos. Por outro lado, existem muitos negros no Tea Party, os quais são perseguidos pelos Democratas.


O maior risco para o movimento é ter sido parcialmente cooptado pelo Partido Republicano, ultimamente bem inclinado à esquerda, mas o movimento permaneceu majoritariamente independente e capaz de substituir velhos Republicanos para impedir a marcha da América para a esquerda, o que ajudou a purgar o Partido e injetar sangue novo no Congresso.


Ted Nugent, roqueiro e ativista conservador, nos dá uma idéia bem simples em What the Tea Party stand for?: na gloriosa experiência do self government o povo não pode continuar sendo um mero espectador, como vem ocorrendo há muito tempo. Como patrão do governo supõe-se que We The People participemos ativamente da política, controlando os políticos, assegurando que nossa vontade seja a força por trás das políticas e da elaboração das leis. Lembram disto? Os Americanos do Tea Party exigem retomar este controle imediatamente. (...) Não nos surpreende que os Glenn Becks e Sarah Palins deste País sejam grandes fontes de inspiração: escutá-los é como ouvir a pulsação do que o coração da América pode oferecer de melhor. Fé, esperança, caridade, honestidade, uma ética de trabalho Hercúlea e um rastro de energia positiva é tudo o que o Tea Party significa.


Marrk Alexander, em The Cause of Liberty refere que o ‘Tea Party é muito mais do que uma coalizão de conservadores Independentes com os que ainda se abrigam sob a bandeira Republicana. O movimento é, nos seus fundamentos, uma federação filosófica de Patriotas Americanos que estão juntos, em primeiro lugar por uma devoção à Liberdade Essencial (Essential Liberty) definida em nossa Declaração de Independência e o Rule of Law sacralizado na nossa Constituição’. O movimento pretende obrigar os Representantes eleitos a desinchar o Governo e diminuir as despesas para que possa se comportar dentro dos limites de seus mandatos constitucionais e autoridade limitada.


Certamente a inspiração principal vem do Modelo de Restauração de Ronald Reagan, que infelizmente não pode ser implementado em profundidade por nunca ter contado com maioria nas duas casas do Congresso.


Outro inspirador foi o Dr. Martin Luther King Jr., que eloqüentemente disse: ‘Aqueles que se engajam na ação direta não-violenta não são os criadores da tensão. Estamos somente fazendo emergir a tensão que já existe’. E é a isto que o Tea Party se dedica: levantar-se pelos nossos direitos ao American Wayde forma não violenta, exatamente como ocorreu de forma gloriosa como o movimento pelos Direitos Civis na década de 60, o Tea Party representa um chamado já tardio à América, e mais importante ainda, aos políticos e seus cãezinhos amestrados da mídia. Fedzilla [[6]] está por trás de todos os problemas que a América enfrenta hoje. Mas o maior culpado da tragédia é a apatia do povo em monitorar o governo, escrutinar os candidatos, evitando os burocratas podres que pisam do American Dream!



O QUE FAZER APÓS A VITÓRIA DE 2010?



O homem que pede à liberdade mais do que ela mesma, nasceu para ser escravo [[7]]

ALEXIS DE TOCQEVILLE

O Antigo Regime e a Revolução

Newt Gingrich, ex Speaker of the House e importante líder Republicano, declarou recentemente que os conservadores não podem planejar somente para os próximos dois anos, mas o principal objetivo deve ser substituir a esquerda e criar uma maioria que governe de forma tão decisiva que resulte, nos próximos dez anos numa equipe que continue a construir uma América próspera, reconheçam a necessidade de manter uma América segura e a mais livre de todas as sociedades da história da humanidade. ‘Existem mais de 513.000 funcionários eleitos nos EUA – direções escolares, conselhos municipais, legisladores estaduais, governadores, juízes e muitos mais. Este auto-governo significa que, se ensejarmos realmente uma onda de mudança que acabe com a maioria da esquerda que nos domina desde 1932, a escolha para o Salão Oval será um ganho fácil. We the people tem que estar engajado se quisermos trazer o poder de Washington para nós. Portanto, é necessário um movimento popular que ganhe de volta os governos locais, os Estaduais e, finalmente, o Federal.


Ed Meese, um dos maiores constitucionalistas Americanos e ex Attorney General (equivalente a Ministro da Justiça entre nós) nas Administrações Reagan, Editor do inigualável The Heritage Guide to the Constitution, respondendo ao simpósio da Townhall Magazine "What Should Republicans Do Now?", ressaltou que um dos mais significativos fenômenos da recente campanha eleitoral foi o aumento do interesse na Constituição em todo o País. Gente do povo passou a ler a Constituição e examinar a forma pela qual o governo vem sendo exercido em contraste com o que a Constituição realmente estipula: o conceito de governo limitado, autoridade dividida entre os três poderes, os checks and balances, todos destinados a proteger a liberdade individual. Estes princípios vêm sendo ignorados e, em alguns casos, deliberadamente violados. E pelos três poderes: o Congresso prescinde da Constituição e atua de maneira onipotente, o Executivo aproveita os recessos do Senado para nomear ‘czares’ [[8]] jamais aprovados, o Judiciário toma a si assuntos que pertencem aos poderes eletivos como a condução da guerra.


A receita de Meese é: restaurar o governo constitucional, a supremacia da Constituição sobre os três poderes através de


1. a maioria Republicana deve usar suas prerrogativas sobre o orça,emto para cortar e eliminar funções federais que não sejam autorizadas pela Constituição

2. reforçar e fazer cumprir as regras que obrigam a vinculação à Constituição das leis em discussão

3. aumentar a transparência obrigando a que toda legislação deva ser veiculada pela internet no mínimo uma semana antes das votações finais

4. usar a autoridade das Comissões da Casa para investigar todos os Departamentos e Agências no sentido de impedir e punir fraudes e abusos de intromissão na vida e nos negócios dos cidadãos

5. os Senadores Republicanos deverão assegurar que os Juízes sabatinados demonstrem claramente fidelidade à Constituição sem engajamento em ativismo judicial (alternativo)

6. o Congresso deverá focar na redução de despesas, tanto suas próprias como dos demais ramos do Governo

7. toda lei deve se aplicar a todos os funcionários do Governo, sem exceção, da mesma forma e intensidade em que afetam ao povo

E já encontrou nos novos eleitos em novembro com disposição para tanto: em artigo no Washington Times Stephen Dinan mostra que os Republicanos da Câmara apresentarão tão logo empossados, uma resolução para ler o texto completo da Constituição no Plenário no próximo dia 6 de janeiro. O objetivo é enfatizar as regras do governo limitado impostas ao Congresso pelos Founders e tentar trazer de volta muitos desses princípios para a atividade legislativa diária. A proposta foi originalmente do Republicano da Virginia Robert W. Goodlatte, que declarou: ‘este Congresso foi muito agressivo em expandir o poder do governo federal, o que foi um grande retrocesso’. Um claro exemplo foi dado pela Speaker of the House, Nancy Pelosi: perguntada se a Constituição autorizava que o Congresso obrigasse os cidadãos a adquirir um seguro saúde, ela respondeu: ‘Você está falando sério? Você está falando sério?’ Em outras palavras: o que a Constituição tem a ver com as leis aprovadas pelo Congresso?!


Pode-se notar por esta resposta que urge o retorno ao Governo Constitucional!


Mas não se pode esquecer a advertência de Glenn Beck: ‘Os Republicanos devem manter o foco na redução de seu próprio poder. Políticos da Direita adoram falar de reduzir o tamanho e os objetivos de Washington, porém uma vez no poder, eles tendem a adquirir small-government amnésia. Eles não querem limitar o poder do governo. Querem limitar o poder do governo quando o outro lado está no controle. E isto não é suficiente’.



 
[1] Visitei o Alamo em 1985 e verifiquei a reverência dos visitantes americanos. Falava-se baixo como se estivéssemos numa Igreja (originalmente foi uma missão religiosa espanhola, Misión San Antonio de Valero) e compreendi porque o local permanece um ‘local sagrado, o Santuário da Liberdade do Texas (Shrine of Texas Liberty) onde heróis fizeram o sacrifício final pela Liberdade’.

[2] Houston, nascido na Virginia, ex-Governador do Tennessee e amigo pessoal do Presidente Jackson, foi um dos entrevistados por Alexis de Tocqueville em suas pesquisa para escrever Democracy in America.

[3] Tea Party: a reação revolucionária contra o aumento dos impostos cobrados pela Coroa Britânica após a aprovação do Stamp Act de 1765, que obrigava ao pagamento de um imposto mediante um selo aplicado a todos os documentos legais e jornais circulantes nas Colônias. Esta reação foi alimentada pelo brado de no taxation without representation (sem representação, nada de impostos) e ao boicote de mercadorias inglesas, chegando à rebelião plena em 16 de dezembro de 1773 em Boston quando os carregamentos de chá foram jogados ao mar.

[4] Grassroots: literalmente raiz de grama. Significa tanto o povo que vive nas pradarias e montanhas, caipiras, como movimento político criado e dirigido por políticos de comunidades. Implica no apoio de grupos que surgem natural e espontaneamente nos níveis locais por voluntários que dedicam seu tempo ao partido local, o que pode ajudar o partido no nível nacional, p. ex., um movimento para convencer pessoas a se registrar para votar. São completamente diferentes de movimentos orquestrados pelas tradicionais estruturas de poder.

[5] A Interstate 495, anel rodoviário que cerca Washington e seus subúrbios.

[6] Fedzilla: Federal+Godzilla, o monstro destruidor da famosa série japonesa

[7] De Tocqueville refería-se ao fato de que aqueles que valorizam a liberdade pelos bens materiais que ela oferece não a mantiveram por muito tempo. Compare-se com o que disse Juan Domingo Perón: Los trabajadores argentinos nacieron animales de rebaño y como tales morirán. Para gobernarlos basta darles comida, trabajo y leyes para rebaño que los mantengan en brete

[8] São cargos criados diretamente pelo Executivo e podem ter ou não os nomes submetidos à aprovação pelo Legislativo. Os “czares” serão abordados detalhadamente no próximo artigo.


 
HEITOR DE PAOLA - MSM - 12 DE JANEIRO DE 2011
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