Construção de novo gasoduto amplia disputa entre Rússia e Ocidente

- EL PAÍS - 3 Abr, 2021 -

MARÍA R. SAHUQUILLO | ELENA G. SEVILLANO -


O presidente russo, Vladimir Putin, e a chanceler alemã, Angela Merkel, cumprimentam-se em Berlim, em janeiro de 2020, no início de uma conferência sobre a Líbia.PICTURE ALLIANCE / DPA/PICTURE ALLIANCE VIA GETTY

O gasoduto mais polêmico da geopolítica mundial passa pelas gélidas águas do Báltico. Nesse mar interior de água salobra, próximo à ilha dinamarquesa de Bornholm, o barco russo de colocação de tubos Fortuna trabalha para terminar de construir a linha-tronco do Nord Stream 2. Restam apenas 138 quilômetros para sua conclusão (6% do total). Mas a controvérsia permanece. O megaprojeto, que levará gás russo à Alemanha, continua dividindo a União Europeia, onde os países do Leste temem que a estrutura se transforme em outro tentáculo da influência de Moscou. Enquanto isso, paira a ideia de novas sanções dos Estados Unidos, que também têm seus próprios interesses estratégicos e comerciais, contra as empresas que participam do projeto.


Esse novo fluxo de gás russo sob o Báltico alimenta três grandes batalhas. Em primeiro lugar, a geopolítica, sobre o rumo a seguir nas relações do Ocidente com uma Rússia cada vez mais assertiva, e sobre a cooperação com o Kremlin em assuntos estratégicos. Depois a energética, com o debate sobre futuro do uso do gás frente a outras fontes menos poluentes. E finalmente a comercial, com a disputa entre Washington e Moscou —que atravessam o pior momento de suas relações—, por este último tentar introduzir seu gás no mercado europeu.

O projeto foi muito polêmico desde sua criação, em 2015, quando a gigante Gazprom, controlada pelo Estado russo, formou um consórcio com cinco companhias europeias para a construção de um novo gasoduto em substituição ao Nord Stream 1 —com menor capacidade— no leito do Báltico. O Nord Stream 2, com um custo de 9,5 bilhões de euros (cerca de 64 bilhões de reais), metade financiada pela Gazprom e outra metade pelos investidores europeus, ganhou impulso quando o social-democrata Gerhard Schröder deixou a Chancelaria alemã e se tornou assessor da Gazprom. O novo gasoduto permitirá agora que a gigante russa entregue 55 bilhões de metros cúbicos de gás por ano à Europa através de 2.460 quilômetros de tubulações que cobrem os mais de 1.200 quilômetros da russa Ust-Luga até Lubmin, uma pequena localidade muito próxima à cidade de Greifswald, na Alemanha.


A obra deveria ter sido concluída no final de 2019. Mas o debate político e as sanções que os EUA impuseram em dezembro daquele ano às empresas participantes provocaram um enorme atraso. Também geraram perdas bilionárias à Gazprom e a indignação do Kremlin, que defende a viabilidade do gasoduto de forma contundente. O envenenamento do líder opositor Alexei Navalny em agosto passado, que quase lhe tirou a vida e no qual o Ocidente vê a mão do Kremlin, deixou o tema ainda mais quente. As vozes que exigem a paralisação total do Nord Stream 2 voltaram a se elevar, com a recente e polêmica condenação de Navalny a mais de três anos de prisão por um caso antigo. O opositor já cumpre pena numa severa colônia penal russa.


Pressão sobre a Alemanha


A pressão para que a Alemanha retire seu apoio ao projeto aumentou nas últimas semanas. O Parlamento Europeu pediu a paralisação das obras. Mas a chanceler (primeira-ministra) Angela Merkel se mantém firme. Diz que o Nord Stream 2 é um negócio privado e insiste em separá-lo do direito que a UE tem de continuar impondo sanções a indivíduos russos em resposta ao caso Navalny e à dura repressão das manifestações pacíficas na Rússia.



Para a Alemanha, tampouco seria simples e barato abandonar o gasoduto, afirma Jürgen Trittin, deputado dos Verdes no Bundestag e membro da Comissão de Relações Exteriores. “Seria preciso pagar muito dinheiro em compensações às empresas. Estima-se que cerca de 10 bilhões de euros (67 bilhões de reais)”, diz. Os Verdes, que despontaram como o partido decisivo na Alemanha após as eleições de setembro, não gostam do projeto. “É ruim para os objetivos climáticos da UE. Se levarmos a sério o green deal, chegar a emissões zero em 2050, não podemos construir uma nova infraestrutura de combustível fóssil”, afirma Trittin. Mas legalmente, ele reconhece, não se poderia paralisar a obra sem compensar com bilhões a Gazprom e uma centena de investidores, entre eles a francesa Engie, a austríaca OWV, a holandesa Shell e as alemãs Wintershall DEA e Uniper. O deputado também qualifica de “besteira” o argumento da dependência energética da Rússia. “A Europa pode conseguir gás em qualquer parte. A Rússia é muito mais dependente de nós porque sua economia sofreria muito se deixasse de nos mandar gás. O principal problema do gasoduto é que, como europeus, prolongamos nossa dependência dos combustíveis fósseis”, afirma.


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