Como a China se tornou  uma versão caricata de  1984, de George Orwell 

Roteiro: Rodrigo da Silva Narração: Daniela Guaraná Edição: Erick Ribeiro SEM DATA





Poucos governos têm tamanha importância para o planeta quanto o chinês.

Há mais de 1 bilhão e 400 milhões de pessoas vivendo na China nesse exato instante - o que significa dizer que as leis do país determinam a vida de uma em cada cinco pessoas no mundo.

A população da China é tão grande que equivale à soma dos habitantes da América do Norte, da América do Sul, da Austrália, da Nova Zelândia e de toda a Europa Ocidental.

Existem mais de 160 cidades na China com uma população superior a um milhão de habitantes. Nos Estados Unidos, são apenas nove.

Só tem um problema com todas essas pessoas: elas vivem numa distopia orwelliana.

Se você nunca ouviu falar, o escritor britânico Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo George Orwell, foi um dos maiores autores de ficção do século vinte.

Sua obra máxima, 1984, publicada no final da década de quarenta, é um romance distópico que retrata um futuro imaginado, o ano de 1984, um período em que grande parte do mundo está presa a uma engrenagem totalitária. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão.

Parece distante? Não na China.

Em primeiro lugar: não há democracia no maior país do mundo.

A China é governada por um único partido, a maior organização política do planeta. Há mais pessoas filiadas ao Partido Comunista Chinês do que habitantes na Alemanha, no Reino Unido, na Itália e na França. Ao todo, são mais de 90 milhões de membros, 7% da população chinesa - o que significa dizer que a cada cem pessoas no mundo, uma é filiada ao partido.

Desde o dia 1º de outubro de 1949 o país é governado pela mesma organização. Ou seja: há mais de setenta anos o mesmo grupo político impede eleições livres e diretas na China.

Quem tem a pretensão de entrar para a oposição, corre sérios riscos.

O CECC, uma agência que monitora os direitos humanos no país, lista nominalmente 1.500 prisioneiros políticos espalhados pela China - incluindo dissidentes, ativistas de direitos humanos, jornalistas, artistas, líderes religiosos e advogados.

A ONG de direitos humanos Dui Hua (对话, "diálogo" em chinês), que monitora a situação do país há quatro décadas, relata um número bem maior: diz que a China tem mais de 7 mil prisioneiros sob custódia.

Independentemente da contagem, ninguém prende tantos oposicionistas políticos no mundo quanto o governo chinês.

E uma minoria sofre indiscutivelmente mais violência do que qualquer outro grupo: os uigures.

Não faz ideia de quem se trata?

Os uigures são muçulmanos de origem turcomena que habitam principalmente a região autônoma chinesa de Xinjiang, no extremo oeste do país.

Desde que as forças comunistas chinesas conquistaram e ocuparam a República do Turquestão Oriental durante sua breve existência, em 1949, todas as tentativas dos uigures de pleitear por mais liberdade ou autonomia foram reprimidas com violência por Pequim.

Xinjiang é responsável por quase 40% das reservas de carvão na China, quase 20% das reservas de gás e petróleo, além de perto de 20% do potencial chinês em energia eólica. Quanto mais a China depende de recursos energéticos, mais Xinjiang é indispensável às pretensões do país.

Só tem um problema com a região: seus habitantes.

Para combater a predominância muçulmana na região, nos anos noventa, o governo chinês passou a incentivar a migração para Xinjiang de trabalhadores chineses han, o maior grupo étnico do país, dando a eles a maioria dos empregos de petróleo e gás.

Desde então, a escalada de violência contra os uigures vem aumentando. E na última década, virou literalmente crime contra a humanidade à luz do dia.

Nenhuma nação no mundo sustenta um programa de Estado tão abertamente racista quanto a China.

Há 182 campos de concentração, 209 prisões e 74 campos de trabalho forçado, construídos para a, abre aspas, "reeducação" dos uigures no país. Nesses espaços, mais de 1 milhão de muçulmanos são trancados e torturados pelas autoridades chinesas. É a maior detenção em larga escala de uma minoria étnico-religiosa desde a Alemanha Nazista.

O governo justifica a ação como contraterrorismo. Mas a preocupação vai muito além da segurança nacional. O objetivo é remover qualquer devoção ao Islã.

Nos campos, os muçulmanos passam seus dias em um programa de doutrinação de alta pressão, onde são forçados a ouvir palestras, cantar hinos em louvor ao Partido Comunista Chinês e escrever ensaios de "autocrítica".

As autoridades locais comparam os presos a pacientes que necessitam de isolamento e intervenção de emergência. O Islã, na visão do governo, é um vírus que demanda quarentena e tratamento agressivo.

Para atender ao desafio, muçulmanos são detidos pelos motivos mais estúpidos possíveis - como recitar o Alcorão em funerais, deixar a barba crescer, usar véu, receber ligações do exterior, tentar abruptamente parar de fumar ou beber, portar livros sobre religião e cultura uigur, vestir camisetas com símbolos muçulmanos ou orar em casa na presença de visitas.

Mulheres também são detidas por causa das transgressões de seus maridos. Nos campos, inúmeras são esterilizadas pelas autoridades chinesas. As que têm sorte de engravidar longe das grades prisionais são proibidas de dar nomes muçulmanos para seus filhos.

Quando um marido de uma uigur é preso em Xinjiang tendo a sorte de não condenar sua esposa, o que sobra de sua família passa a ser monitorado de perto pelo Estado policial chinês, que não apenas instala câmeras de vídeo em sua residência, como literalmente envia oficiais para acompanhar o dia a dia debaixo do seu teto e dividir a cama com a sua esposa.

Dentro desses campos, os muçulmanos são submetidos a exercícios bizarros destinados à lavagem cerebral, assim como tortura e privação física. Em algumas instalações, os detidos estão sujeitos a waterboarding - a prática de afogamento simulado - e são mantidos isolados sem comida e água, além de impedidos de dormir.

Nas sessões de tortura, muçulmanos são interrogados sobre suas práticas religiosas e o motivo de suas viagens ao exterior, além de forçados a pedir desculpas pelas roupas que vestem.

Abduwali Ayup, um lingüista que operava escolas de uigur em Xinjiang até bem pouco tempo, diz a Al Jazeera que passou 15 meses em três instalações em campos de

concentração. No dia de sua prisão, Ayup conta que 20 policiais o levaram a uma cela e o estupraram.

Além dos campos, os esforços de reengenharia social do estado chinês envolvem também a separação sistemática de crianças uigures de seus pais.

Na região que a ONU apelida de "zona sem direitos", opera-se um estado totalitário na mais completa acepção da palavra.

Há postos de controle espalhados por todos os cantos, onde os muçulmanos provisoriamente livres são obrigados a escanear cartões de identificação. As autoridades usam tecnologia de reconhecimento facial para monitorar seus movimentos, coletam seus DNAs, obrigam os uigures ao download de aplicativos para rastreamento no celular e confiscam seus passaportes para impedir viagens ao exterior.

Até 2016, mais de 160 mil câmeras foram instaladas apenas na cidade de Urumqi, capital de Xinjiang.

Em nenhum lugar do mundo, nem mesmo na Coréia do Norte, a população é monitorada tão estritamente quanto em Xinjiang, uma área que é quatro vezes maior que a Alemanha e compartilha fronteiras com oito países, incluindo Paquistão, Afeganistão, Tajiquistão e Cazaquistão.

Para aniquilar qualquer traço cultural islâmico, numa espécie de Revolução Cultural étnica, o governo chinês passou a promover o consumo de álcool e fumo, ofensivos aos muçulmanos devotos, e proibiu os uigures de não enviar seus filhos para escolas estatais - onde crianças diariamente sofrem lavagem cerebral nacionalista.

Os efeitos são perversos.

Cerca de 1,5% da população chinesa vive em Xinjiang. Mas a região é responsável por mais de 20% das detenções em todo o país, de acordo com dados oficiais compilados pelo Chinese Human Rights Defenders. Mais da metade dos 24 milhões de habitantes da região pertence a grupos minoritários étnicos muçulmanos.

As estatísticas oficiais mostram que, entre 2015 e 2018, as taxas líquidas combinadas de crescimento populacional de Hotan e Kashgar, duas das maiores cidades de Xinjiang, caíram 84%. Centenas de milhares de uigures desapareceram nos últimos anos - o que significa dizer que a China está realizando nesse momento o maior genocídio racial da nossa geração.

Por toda a região, muçulmanos são forçados a trabalhar em um esquema lucrativo apenas para as centenas de empresas chinesas que recebem próximo de 250 dólares por detento que treinam e mais 700 dólares para cada detento que empregam.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, caracteriza-se trabalho forçado, abre aspas, “todo trabalho ou serviço exigido de um indivíduo sob ameaça de qualquer penalidade e para o qual ele não se ofereceu de espontânea vontade”.

É exatamente o que acontece em Xinjiang.

Identificar qual o tamanho dessa violência é um desafio. Muitas das ferramentas tradicionais que as empresas utilizam, como auditorias trabalhistas, mascaram a realidade. ONGs e jornalistas, por sua vez, também não podem realizar pesquisas aprofundadas de campo devido ao controle estatal.

As estimativas mais conservadoras do Center for Strategic and International Studies, levantadas a partir de imagens de satélite e documentos oficiais, apontam para 100 mil trabalhadores nessas condições na região.

Xinjiang responde por 84% da produção chinesa de algodão. E a China é o maior exportador de algodão do mundo - produz o equivalente a 22% do mercado global.

O trabalho escravo é literalmente um negócio da China.

Além das inúmeras companhias nacionais, algumas multinacionais também operam na região. Não raramente, empresas europeias relatam sofrer pressão das autoridades chinesas para estabelecer vínculos comerciais com Xinjiang como condição para expansão em outras cidades chinesas, como Pequim.

Embora pesquisas não tenham descoberto relação direta entre qualquer multinacional e os campos de concentração, há relações indiretas com a exploração.