Como a China se tornou  uma versão caricata de  1984, de George Orwell 

Roteiro: Rodrigo da Silva Narração: Daniela Guaraná Edição: Erick Ribeiro SEM DATA





Poucos governos têm tamanha importância para o planeta quanto o chinês.

Há mais de 1 bilhão e 400 milhões de pessoas vivendo na China nesse exato instante - o que significa dizer que as leis do país determinam a vida de uma em cada cinco pessoas no mundo.

A população da China é tão grande que equivale à soma dos habitantes da América do Norte, da América do Sul, da Austrália, da Nova Zelândia e de toda a Europa Ocidental.

Existem mais de 160 cidades na China com uma população superior a um milhão de habitantes. Nos Estados Unidos, são apenas nove.

Só tem um problema com todas essas pessoas: elas vivem numa distopia orwelliana.

Se você nunca ouviu falar, o escritor britânico Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo George Orwell, foi um dos maiores autores de ficção do século vinte.

Sua obra máxima, 1984, publicada no final da década de quarenta, é um romance distópico que retrata um futuro imaginado, o ano de 1984, um período em que grande parte do mundo está presa a uma engrenagem totalitária. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão.

Parece distante? Não na China.

Em primeiro lugar: não há democracia no maior país do mundo.

A China é governada por um único partido, a maior organização política do planeta. Há mais pessoas filiadas ao Partido Comunista Chinês do que habitantes na Alemanha, no Reino Unido, na Itália e na França. Ao todo, são mais de 90 milhões de membros, 7% da população chinesa - o que significa dizer que a cada cem pessoas no mundo, uma é filiada ao partido.

Desde o dia 1º de outubro de 1949 o país é governado pela mesma organização. Ou seja: há mais de setenta anos o mesmo grupo político impede eleições livres e diretas na China.

Quem tem a pretensão de entrar para a oposição, corre sérios riscos.

O CECC, uma agência que monitora os direitos humanos no país, lista nominalmente 1.500 prisioneiros políticos espalhados pela China - incluindo dissidentes, ativistas de direitos humanos, jornalistas, artistas, líderes religiosos e advogados.

A ONG de direitos humanos Dui Hua (对话, "diálogo" em chinês), que monitora a situação do país há quatro décadas, relata um número bem maior: diz que a China tem mais de 7 mil prisioneiros sob custódia.

Independentemente da contagem, ninguém prende tantos oposicionistas políticos no mundo quanto o governo chinês.

E uma minoria sofre indiscutivelmente mais violência do que qualquer outro grupo: os uigures.

Não faz ideia de quem se trata?

Os uigures são muçulmanos de origem turcomena que habitam principalmente a região autônoma chinesa de Xinjiang, no extremo oeste do país.

Desde que as forças comunistas chinesas conquistaram e ocuparam a República do Turquestão Oriental durante sua breve existência, em 1949, todas as tentativas dos uigures de pleitear por mais liberdade ou autonomia foram reprimidas com violência por Pequim.

Xinjiang é responsável por quase 40% das reservas de carvão na China, quase 20% das reservas de gás e petróleo, além de perto de 20% do potencial chinês em energia eólica. Quanto mais a China depende de recursos energéticos, mais Xinjiang é indispensável às pretensões do país.

Só tem um problema com a região: seus habitantes.

Para combater a predominância muçulmana na região, nos anos noventa, o governo chinês passou a incentivar a migração para Xinjiang de trabalhadores chineses han, o maior grupo étnico do país, dando a eles a maioria dos empregos de petróleo e gás.

Desde então, a escalada de violência contra os uigures vem aumentando. E na última década, virou literalmente crime contra a humanidade à luz do dia.

Nenhuma nação no mundo sustenta um programa de Estado tão abertamente racista quanto a China.

Há 182 campos de concentração, 209 prisões e 74 campos de trabalho forçado, construídos para a, abre aspas, "reeducação" dos uigures no país. Nesses espaços, mais de 1 milhão de muçulmanos são trancados e torturados pelas autoridades chinesas. É a maior detenção em larga escala de uma minoria étnico-religiosa desde a Alemanha Nazista.

O governo justifica a ação como contraterrorismo. Mas a preocupação vai muito além da segurança nacional. O objetivo é remover qualquer devoção ao Islã.

Nos campos, os muçulmanos passam seus dias em um programa de doutrinação de alta pressão, onde são forçados a ouvir palestras, cantar hinos em louvor ao Partido Comunista Chinês e escrever ensaios de "autocrítica".

As autoridades locais comparam os presos a pacientes que necessitam de isolamento e intervenção de emergência. O Islã, na visão do governo, é um vírus que demanda quarentena e tratamento agressivo.

Para atender ao desafio, muçulmanos são detidos pelos motivos mais estúpidos possíveis - como recitar o Alcorão em funerais, deixar a barba crescer, usar véu, receber ligações do exterior, tentar abruptamente parar de fumar ou beber, portar livros sobre religião e cultura uigur, vestir camisetas com símbolos muçulmanos ou orar em casa na presença de visitas.

Mulheres também são detidas por causa das transgressões de seus maridos. Nos campos, inúmeras são esterilizadas pelas autoridades chinesas. As que têm sorte de engravidar longe das grades prisionais são proibidas de dar nomes muçulmanos para seus filhos.

Quando um marido de uma uigur é preso em Xinjiang tendo a sorte de não condenar sua esposa, o que sobra de sua família passa a ser monitorado de perto pelo Estado policial chinês, que não apenas instala câmeras de vídeo em sua residência, como literalmente envia oficiais para acompanhar o dia a dia debaixo do seu teto e dividir a cama com a sua esposa.

Dentro desses campos, os muçulmanos são submetidos a exercícios bizarros destinados à lavagem cerebral, assim como tortura e privação física. Em algumas instalações, os detidos estão sujeitos a waterboarding - a prática de afogamento simulado - e são mantidos isolados sem comida e água, além de impedidos de dormir.

Nas sessões de tortura, muçulmanos são interrogados sobre suas práticas religiosas e o motivo de suas viagens ao exterior, além de forçados a pedir desculpas pelas roupas que vestem.

Abduwali Ayup, um lingüista que operava escolas de uigur em Xinjiang até bem pouco tempo, diz a Al Jazeera que passou 15 meses em três instalações em campos de

concentração. No dia de sua prisão, Ayup conta que 20 policiais o levaram a uma cela e o estupraram.

Além dos campos, os esforços de reengenharia social do estado chinês envolvem também a separação sistemática de crianças uigures de seus pais.

Na região que a ONU apelida de "zona sem direitos", opera-se um estado totalitário na mais completa acepção da palavra.

Há postos de controle espalhados por todos os cantos, onde os muçulmanos provisoriamente livres são obrigados a escanear cartões de identificação. As autoridades usam tecnologia de reconhecimento facial para monitorar seus movimentos, coletam seus DNAs, obrigam os uigures ao download de aplicativos para rastreamento no celular e confiscam seus passaportes para impedir viagens ao exterior.

Até 2016, mais de 160 mil câmeras foram instaladas apenas na cidade de Urumqi, capital de Xinjiang.

Em nenhum lugar do mundo, nem mesmo na Coréia do Norte, a população é monitorada tão estritamente quanto em Xinjiang, uma área que é quatro vezes maior que a Alemanha e compartilha fronteiras com oito países, incluindo Paquistão, Afeganistão, Tajiquistão e Cazaquistão.

Para aniquilar qualquer traço cultural islâmico, numa espécie de Revolução Cultural étnica, o governo chinês passou a promover o consumo de álcool e fumo, ofensivos aos muçulmanos devotos, e proibiu os uigures de não enviar seus filhos para escolas estatais - onde crianças diariamente sofrem lavagem cerebral nacionalista.

Os efeitos são perversos.

Cerca de 1,5% da população chinesa vive em Xinjiang. Mas a região é responsável por mais de 20% das detenções em todo o país, de acordo com dados oficiais compilados pelo Chinese Human Rights Defenders. Mais da metade dos 24 milhões de habitantes da região pertence a grupos minoritários étnicos muçulmanos.

As estatísticas oficiais mostram que, entre 2015 e 2018, as taxas líquidas combinadas de crescimento populacional de Hotan e Kashgar, duas das maiores cidades de Xinjiang, caíram 84%. Centenas de milhares de uigures desapareceram nos últimos anos - o que significa dizer que a China está realizando nesse momento o maior genocídio racial da nossa geração.

Por toda a região, muçulmanos são forçados a trabalhar em um esquema lucrativo apenas para as centenas de empresas chinesas que recebem próximo de 250 dólares por detento que treinam e mais 700 dólares para cada detento que empregam.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, caracteriza-se trabalho forçado, abre aspas, “todo trabalho ou serviço exigido de um indivíduo sob ameaça de qualquer penalidade e para o qual ele não se ofereceu de espontânea vontade”.

É exatamente o que acontece em Xinjiang.

Identificar qual o tamanho dessa violência é um desafio. Muitas das ferramentas tradicionais que as empresas utilizam, como auditorias trabalhistas, mascaram a realidade. ONGs e jornalistas, por sua vez, também não podem realizar pesquisas aprofundadas de campo devido ao controle estatal.

As estimativas mais conservadoras do Center for Strategic and International Studies, levantadas a partir de imagens de satélite e documentos oficiais, apontam para 100 mil trabalhadores nessas condições na região.

Xinjiang responde por 84% da produção chinesa de algodão. E a China é o maior exportador de algodão do mundo - produz o equivalente a 22% do mercado global.

O trabalho escravo é literalmente um negócio da China.

Além das inúmeras companhias nacionais, algumas multinacionais também operam na região. Não raramente, empresas europeias relatam sofrer pressão das autoridades chinesas para estabelecer vínculos comerciais com Xinjiang como condição para expansão em outras cidades chinesas, como Pequim.

Embora pesquisas não tenham descoberto relação direta entre qualquer multinacional e os campos de concentração, há relações indiretas com a exploração.

No topo da lista das empresas que merecem atenção está a alemã Siemens, que colabora ativamente com a China Electronics Technology Group, uma empresa estatal militar que desenvolveu o aplicativo de policiamento usado em Xinjiang.

Outra companhia que merece destaque é a espanhola Telefónica, que possui uma joint venture com a China Unicom, que usa big data para rastrear pessoas em Xinjiang.

Há meses, o Congresso dos Estados Unidos discute uma legislação para condenar os abusos humanitários na região. No final de 2019, a Casa Branca proibiu a importação de produtos fabricados por uma empresa chinesa de Xinjiang por causa do uso de trabalho forçado e criou uma lista negra com 28 entidades por seu papel na repressão aos uigures. Após o processo, com medo de perder mercado nos Estados Unidos, duas empresas australianas anunciaram que estão encerrando parceria com um fornecedor de algodão da região.

O Australian Strategic Policy Institute identificou 27 empresas chinesas que utilizam diretamente de mão-de-obra forçada de muçulmanos em Xinjiang. Segundo seus websites,

essas fábricas mantém relações comerciais com 83 marcas globais conhecidas, vendendo para o mundo desde componentes para smartphones até máscaras de proteção.

Mas os uigures não são as únicas vítimas do Estado policial chinês.

Por todo o país, vigilância e violência são ameaças perturbadoramente presentes - inclusive neste espaço em que você está agora: a internet.

Com 854 milhões de usuários conectados, a população virtual chinesa é duas vezes e meia maior que toda a população dos Estados Unidos. Mas para a maioria dessas pessoas, os sites mais populares do mundo não são facilmente acessíveis graças a um sofisticado sistema, responsável pelo maior programa de censura da história da humanidade: o Grande Firewall da China.

Ao todo, são mais de 10 mil domínios bloqueados no país.

Na China, não há acesso ao Google, ao WhatsApp, à Netflix, nem ao Telegram.

Páginas da Wikipédia em todas as línguas estão banidas.

Facebook, Twitter, Instagram, Youtube, Snapchat, Tumblr, Pinterest e Reddit são proibidos.

Serviços como Gmail, Dropbox, Blogspot, Google Docs, Twitch, Medium, SoundCloud, Goodreads e Flickr estão bloqueados. Assim como acesso aos domínios de organizações de direitos humanos como o da Anistia Internacional, da Repórteres sem Fronteiras, da Freedom House e da Human Rights Watch.

Dos veículos de informação, praticamente ninguém escapa: BBC, The New York Times, El País, The Intercept, Reuters, The Guardian, HuffPost, Le Monde, The Economist, Washington Post. Todos censurados.

A pornografia também é estritamente proibida. Quem produz, divulga ou vende material sexualmente explícito pode ser condenado à prisão perpétua.

Há um deserto virtual irreconhecível a qualquer figura com acesso à internet fora da China.

Dos serviços internacionalmente conhecidos, poucos são permitidos. É o caso do Linkedin, do Skype e do Facetime. Também é possível usar os serviços de email do Yahoo e do Hotmail, além de buscas no Bing. Do resto, nada escapa.

Como fazer para driblar o bloqueio? Se associando a uma Rede Privada Virtual - popularmente conhecida como VPN, um software que permite a um usuário disfarçar o seu endereço IP e contornar a censura. Por óbvio, apelar para essa estratégia é ilegal. E não são muitos os chineses dispostos a correr o risco.

A ausência de aplicativos e sites internacionais incentivou o desenvolvimento e a adoção de alternativas nacionais. O bloqueio do Facebook e do WhatsApp, por exemplo, permitiu o crescimento do WeChat. A proibição da Wikipédia e do Google, por sua vez, levou à criação do Baidu.

Além de bloquear milhares de sites estrangeiros, o governo chinês também monitora ativamente assuntos, conversas e pesquisas nos seus próprios veículos e redes sociais, alimentando o aparelho de censura mais sofisticado do mundo.

Qualquer mensagem enviada através de um grupo do WeChat, por exemplo, é monitorada pela Tencent, a operadora do aplicativo. Todas as conversas são armazenadas por seis meses. Mesmo os diálogos excluídos pelos usuários podem ser recuperados pela censura.

A lista de temas tabus é tão cômica quanto curiosa.

Depois que um meme comparando o Ursinho Pooh a Xi Jinping se tornou viral nas redes sociais chinesas, as autoridades baniram imagens e menções ao desenho animado. Pelo mesmo motivo, o filme Christopher Robin, produzido em 2018, teve o lançamento proibido no país.

Segundo um levantamento publicado pela Universidade da Pensilvânia, por um curto período de tempo até a letra “N” foi censurada, aparentemente impedindo que cientistas sociais expressassem matematicamente a dissidência N> 2, sendo “N” o número de mandatos de Xi Jinping no poder. Cabe lembrar que em 2018, Xi alterou a constituição e ganhou o direito de permanecer no poder por toda a vida.

Os números 4, 6 e 89 também são ocasionalmente censurados por sua referência ao massacre da Praça da Paz Celestial, que aconteceu no dia 4 de junho de 1989 - assunto tabu no país.

Segundo a Freedom House, a internet chinesa é, abre aspas, "a mais controlada, mais opressiva e menos livre do mundo". Em 2018, apenas o Baidu, o maior motor de buscas do país, relatou a exclusão do seu mecanismo de pesquisa de mais de 50 bilhões de itens de informações consideradas prejudiciais na visão do partido.

Para as empresas chinesas, permanecer ao lado do governo é uma questão de vida ou morte. Para evitar multas pesadas, os principais serviços de hospedagem de conteúdo do país contratam censores humanos para eliminar material "ilegal".

Há dezenas de milhares de censores virtuais - geralmente jovens apolíticos na faixa dos vinte anos - trabalhando para controlar o conteúdo exposto na internet neste exato instante, alojados em equipes internas das principais companhias do país ou em fábricas de censura terceirizadas, treinados quase militarmente para decorar os conteúdos proibidos e proteger de críticas a elite do partido e seus familiares.

Os tópicos censurados geralmente envolvem notícias de última hora relacionadas à reputação do partido. Qualquer conteúdo negativo ou não autorizado relacionado a Xi Jinping, por exemplo, é fortemente bloqueado.

Também há censura sistemática de conteúdo que viola tabus de longa data, como a Revolução Cultural, a independência de Taiwan, os campos de concentração em Xinjiang, o domínio sobre o Tibet ou o grupo espiritual proibido Falun Gong.

Como há muitos indivíduos e processos envolvidos, as decisões de censura são arbitrárias e inconsistentes.

O governo geralmente não tem transparência sobre os controles de conteúdo, e as críticas à censura também são censuradas. Não há vias formais de apelação. O que é definido como politicamente sensível hoje pode mudar radicalmente amanhã, e raramente é dito aos usuários por que estão sendo punidos. O resultado, além da censura, é autocensura: chineses melindrados cada vez menos dispostos a expressar qualquer opinião que gere a antipatia do partido.

O mercado de cerceamento é movimentado.

Os censores virtuais ganham entre US$ 350 a US$ 500 por mês. Cada contratado tem a missão de revisar entre mil a duas mil páginas durante um turno, e cada página deve ser aprovada ou rejeitada dentro de uma hora. Diferentemente dos empregados das fábricas de suor, os censores não têm longas horas de trabalho exatamente porque o cansaço pode prejudicar a precisão das decisões.

Softwares de censura também são usados na caça ao conteúdo subversivo, vasculhando páginas da web e marcando palavras potencialmente ofensivas em cores diferentes.

Quando uma página está cheia de palavras com códigos de cores, geralmente exige uma análise mais detalhada dos censores. Em geral, palavras politicamente sensíveis compõem um terço do total das expressões proibidas, seguidas por palavras relacionadas à pornografia, prostituição e jogos de azar.

E os censores não são os únicos a ditar o tom da internet chinesa.

Há ainda os comentaristas virtuais pagos pelo governo, conhecidos informalmente como wumao ​ , os partidários dos ​50 Centavos ​ : empregados para publicar comentários positivos sobre o partido e influenciar as discussões online.

A alcunha faz referência a uma reportagem do Global Times, um veículo estatal chinês, de que os comentaristas recebem cinquenta centavos de renminbi por post. A prática é conhecida em inglês como ​Astroturfing ​ : a ideia de mascarar os patrocinadores de uma mensagem com o intuito de fazer parecer que ela seja apoiada por membros de movimentos populares espontâneos da sociedade.

Há um verdadeiro exército de cybertrolls poluindo as redes sociais chinesas, pagos para denunciarem usuários que publicam declarações consideradas ofensivas, enquanto espalham fake news para deliberadamente confundir o público e criam campanhas de difamação contra os críticos do partido.

Segundo um estudo publicado por pesquisadores de Harvard, Stanford e da Universidade da Califórnia, há 2 milhões de cybertrolls pagos pelo governo atuando nesse momento, responsáveis pela criação de mais de 448 milhões de comentários falsos por ano nas redes sociais.

A manipulação de conteúdo é tamanha que se estende até plataformas bloqueadas na China, como o Twitter.

O objetivo, claro, não é exatamente estimular o debate. Os comentaristas não entram em profundas discussões, nem tocam em temas sensíveis ao governo. A maior parte dos cybertrolls limita-se ao comportamento de líderes de torcida - inflando o sentimento de adoração ao partido.

Se o governo é alvo, por exemplo, de descontentamento de uma determinada região do país, os cybertrolls são imediatamente convocados para entupir as redes sociais das páginas locais com elogios ao partido. Se uma data trágica à memória do governo se aproxima - tabus para a sociedade como o Massacre da Praça da Paz Celestial -, o grupo também é convocado para reverenciar a história chinesa e chamar de traidores todos os seus críticos.

Os cybertrolls agem sob o guarda-chuva do Departamento de Propaganda do Comitê Central do Partido Comunista Chinês (中宣部).

A pasta é indispensável às pretensões do partido: responsável pela curadoria da cultura e da produção de arte do país; pelo currículo nacional de educação ideológica e as pesquisas nas áreas de ciências humanas; pelo controle de um escritório internacional de comunicação, responsável por interagir e brifar a imprensa ocidental; e pelo fornecimento de controle das atividades da imprensa chinesa, revelando instruções sobre o que deve ou não ser publicado, especialmente sobre assuntos delicados ao partido.

No país, sites e contas nas redes sociais que não sejam operados por agências de notícias oficiais não têm permissão legal para relatar notícias. Para o partido, a informação é um instrumento de poder e o "jornalismo" é abertamente uma arma da revolução.

A consequência é censura em massa.

Há cerca de 1.900 jornais no país. Cada cidade tem seu próprio título, mas as páginas são geralmente publicadas pelos próprios governos regionais.

Todas as mais de 2.600 estações de rádio chinesas são estatais.

O Departamento de Propaganda também investe em “mídia estrangeira”, tais como: Nouvelles d'Europe (欧洲时报) e China Times (旺报), para transmitir mensagens positivas sobre o país à comunidade internacional.

Sem gerar qualquer surpresa, no ranking de liberdade de imprensa da organização francesa Repórteres Sem Fronteiras, a China aparece na posição número 177 entre 180 países analisados. Só há menos liberdade na Eritréia, na Coreia do Norte e no Turcomenistão.

O controle é absoluto.

Desde 2013, todos os jornalistas chineses devem ser filiados ao Partido Comunista.

Os editores-chefes dos principais meios de comunicação do país devem comparecer semanalmente ao escritório central do Departamento de Propaganda para receber instruções sobre quais histórias devem ser enfatizadas, subestimadas ou não relatadas. Jornalistas que revelarem as diretrizes do departamento à imprensa estrangeira podem ser acusados ​​de divulgar segredos de Estado. Quem desobedece as orientações do partido pode sofrer duras punições. Nesse momento, mais de 120 jornalistas e blogueiros estão detidos em condições desumanas nas prisões chinesas. Nenhum governo aprisiona tantos jornalistas no mundo.

Coerentemente, muitas obras de arte também sofrem censura pelo partido: livros, músicas, filmes, quadros. De Lady Gaga a Andy Warhol.

A China é um imenso campo de monitoramento e restrição. E a sua autocracia não ocorre apenas na internet: também está presente em praticamente cada esquina do país.

Apenas na cidade de Chongqing, no Sudoeste da China, há 2,6 milhões de câmeras instaladas nas ruas nesse momento, coletando cada passo de seus moradores. Chongqing tem mais câmeras de vigilância do que qualquer cidade do mundo.

E ela não é uma exceção para o partido. A China detém o recorde das cinco cidades mais monitoradas do planeta. São 628 milhões de câmeras espalhadas de Beijing a Xinjiang. Até 2022, a previsão é ter uma câmera para cada dois habitantes.

O investimento em monitoramento é o maior do mundo.

Em 2018, a China gastou mais de US$ 20 bilhões apenas com a compra de câmeras e equipamentos de vigilância - o equivalente à metade do tamanho do mercado global.

Apenas a cidade de Shenzhen, no sul do país, com uma população de 12 milhões de habitantes, planeja ter mais de 16 milhões de câmeras instaladas nos próximos anos. Se toda a China aumentasse os números nessa proporção, isso significaria um total de mais de 2 bilhões de câmeras disponíveis - quase duas câmeras por pessoa.

A tentativa desenfreada de controle social, claro, não nasceu no século vinte e um - emergiu ainda na era maoísta, logo após o estabelecimento da República Popular da China, em 1949.

Mao Tsé Tung, o Grande Timoneiro, inventou o mecanismo com o objetivo de fortalecer o poder de seu partido.

Nas primeiras décadas, sem tecnologia disponível, a vigilância era aplicada através da disseminação de informações boca a boca. Cada cidadão chinês era responsável por monitorar outro cidadão chinês, condenando comportamentos inapropriados aos ideais socialistas.

Com o tempo, vieram as câmeras.

Como diz a Human Rights Watch, o que estamos vendo nesse momento é uma corrida contra "a privacidade entre os departamentos policiais da China, com cada um deles reivindicando ser o melhor e mais inovador na realização de vigilância em massa e controle social".

E a tendência é de um cenário ainda mais autoritário nos próximos anos.

No final de 2019, cientistas da Fudan University, em Xangai, em parceria com o Instituto de Ótica, Mecânica e Física de Changchun, da Academia Chinesa de Ciências, desenvolveram uma câmera de vigilância de 500 megapixels, capaz de identificar uma única pessoa entre dezenas de milhares.

Sua resolução é cinco vezes mais detalhada que o olho humano.

Um ano antes, a China já havia passado a trabalhar com a tecnologia de reconhecimento de caminhada, que usa inteligência artificial para reconhecer pessoas distantes até 50 metros apenas pela maneira como elas andam na rua.

Outra iniciativa, conhecida como "Pássaro Espião", utiliza drones semelhantes a pássaros para monitorar multidões do céu. As aves robóticas são equipadas com câmeras de alta resolução para espionar secretamente dezenas de milhares de pessoas.

A vigilância está intimamente relacionada ao sistema de crédito social recentemente imposto no país - uma espécie macabra de Black Mirror do mundo real.

A ideia é distópica, mas não exatamente novidade.

Desde a década de 1950, pouco depois da ascensão de Mao ao poder, o sistema dang'an (档案) compilou dossiês de informações pessoais, permitindo que, por décadas, o governo mantivesse ativamente registros de seus cidadãos para estabelecer controle social.

A evolução do modelo veio novamente com a tecnologia.

Nesse momento, agências governamentais e empresas privadas estão coletando imensas quantidades de dados sobre cada habitante do país - como eles ganham e gastam seus salários; como pagam impostos ou compras online; com quem se relacionam; com qual frequência questionam o governo dentro e fora da internet; seus antecedentes criminais e seus históricos no trânsito. Tudo isso com o monitoramento irrestrito da vida online e o apoio das centenas de milhões de câmeras instaladas pelo país, que vigiam cada atividade.

A China criou o sistema como um programa piloto em 2010, mas passou a implementar a construção de um sistema nacional de crédito social apenas em 2014.

Ao classificar os cidadãos segundo uma variedade de comportamentos, de hábitos de compras a discursos online, o governo pretende fabricar uma sociedade supostamente livre de problemas.

O objetivo expresso do sistema é promover, abre aspas, "valores fundamentais socialistas", "servir ao crescimento e desenvolvimento dos jovens para promover a construção da integridade social" e "fornecer uma riqueza de serviços de crédito de bem-estar público e produtos de crédito orientado para o mercado".

O objetivo implícito, no entanto, é um pouco diferente: criar cidadãos-modelo que não desafiem o Partido Comunista, removendo a influência ocidental dos hábitos chineses e promovendo a concepção da única identidade chinesa possível: aquela que o próprio governo determina.

"Se as pessoas mantiverem suas promessas, poderão ir a qualquer lugar do mundo", diz um documento do governo. "Se as pessoas quebrarem suas promessas, não serão capazes de se mexer nem um centímetro".

Em vias gerais, nesse jogo distópico, uma pontuação alta de crédito social oferece aos chineses uma série de pequenas vantagens. Os indivíduos-modelo - ou seja, aqueles que melhor se comportam dentro dos padrões estabelecidos pelo partido - recebem benefícios como descontos em contas de energia, melhores ofertas de passagens aéreas, tratamento VIP em aeroportos, melhor posição em filas de emprego e maior visibilidade em sites de namoro.

Indivíduos-problema com baixa pontuação de crédito social seguem o caminho oposto - encontrando imensas dificuldades pela frente, como proibições de compra de passagens aéreas e de bilhetes de trem de alta velocidade, impossibilidade de alugar imóveis nos melhores bairros de suas províncias, suspensão nas contas de todas as suas redes sociais, e até bloqueio em sites de namoro.

As classificações de crédito social podem subir e descer com base nas ações de um indivíduo. A metodologia exata é segredo de Estado, mas há exemplos amplamente conhecidos.

Ao comprar fraldas para um bebê, por exemplo - algo que sugere responsabilidade sua com as crianças - os seus pontos aumentam. Mas ao comprar álcool em excesso, eles derretem. Joga online? Se você não trapaceia ganhará alguns pontos por isso, mas se passar mais de 10 horas por dia na frente de um computador, sua classificação diminuirá. E com uma pontuação baixa, o governo terá autonomia para diminuir a velocidade da sua internet.

Pais com bom score tem maiores probabilidades de ingressar seus filhos em escolas de referência, que por sua vez estão indisponíveis para pais com baixa pontuação.

Até o final de 2018, num curto espaço de tempo, os tribunais chineses proibiram mais de 17 milhões de pessoas de adquirirem passagens aéreas e outras mais de 5 milhões de comprarem bilhetes de trem. Essas pessoas literalmente entraram numa lista negra.

Como conta a revista Time, em certas áreas da China, ao ligar para um desses pobres indivíduos condenados pelo sistema social, um chinês pode ouvir uma sirene tocando e uma mensagem gravada dizendo: “Atenção, essa pessoa está na lista negra. Tenha cuidado e peça-lhe que pague suas dívidas”.

Quando uma pessoa na lista negra atravessa determinados cruzamentos em Pequim, a tecnologia de reconhecimento facial projeta seu rosto e número de identificação em enormes outdoors eletrônicos.

Em um discurso no final de 2019, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, retratou o modelo como, abre aspas, "um sistema orwelliano com a premissa de controlar praticamente todas as facetas da vida humana".

Não poderia descrever melhor.

A China se tornou uma versão caricata de 1984.

O Grande Irmão está de olho.

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