China e EUA: uma relação cada vez pior

- O ESTADO DE SÃO PAULO - Moisés Naím - 8 NOV, 2021 -

O presidente da China, Xi Jinping, participa de comemoração pelo 110º aniversário da Revolução de 1911. Foto: Noel Celis / AFP

Em Washington, o consenso é de que uma segunda Guerra Fria já começou. Vislumbra-se um conflito prolongado que não implicaria confronto militar direto entre as duas nações


No final de julho, Wendy Sherman, vice-ministra das Relações Exteriores dos Estados Unidos, fez uma visita oficial a Tianjin, cidade localizada no noroeste da China. Lá encontrou seu homólogo, o vice-ministro Xie Feng. O objetivo dessa visita oficial era ver se seria possível aliviar o atrito entre os dois países.


Não funcionou.


Xie Feng a recebeu entregando duas cartas. A primeira se intitulava “Lista de práticas inadequadas que os Estados Unidos devem abandonar” e a segunda, “Lista de casos particulares importantes que preocupam a China”.


A primeira exigia que o governo de Washington eliminasse incondicionalmente as restrições de visto para entrada nos Estados Unidos que pesam sobre altos funcionários do governo e membros do Partido Comunista Chinês e suas famílias. A carta também pedia a revogação das sanções americanas aos líderes do partido e do governo.


A segunda carta expressava “sérias preocupações” quanto ao tratamento dispensado a certos cidadãos chineses que foram proibidos de entrar nos Estados Unidos e também quanto à perseguição a diplomatas e ao crescente sentimento antichinês nos Estados Unidos.


A vice-ministra Sherman respondeu via Twitter que seu país “continuaria a pressionar a República Popular da China a respeitar as normas e obrigações internacionais”.

Soldados batem continência em frente a mísseis com capacidade nuclear durante desfile militar em 2009. Foto: REUTERS/David Gray/File Photo

Daquela reunião até hoje as coisas pioraram. A China realizou testes com um novo míssil hipersônico, capaz de transportar bombas nucleares que podem voar a mais de cinco vezes a velocidade do som. Enxames de até 150 caças-bombardeiros chineses vêm invadindo o espaço aéreo de Taiwan com frequência cada vez maior. A China está construindo 119 silos subterrâneos para abrigar mísseis balísticos de alcance intercontinental.


E, esta semana, um relatório do Pentágono alertou que o gigante asiático está expandindo seu arsenal nuclear mais rápido do que se pensava apenas um ano atrás. A China talvez tivesse 700 ogivas nucleares em 2017 e pode ter mais de 1 mil em 2030 (os Estados Unidos têm 3.750).


Capacidade nuclear chinesa


Pequim está modernizando rapidamente seu arsenal atômico, com novos mísseis e equipamentos modernos.


Em Washington, o consenso é de que uma segunda Guerra Fria já começou. Vislumbra-se um conflito prolongado que não implicaria confronto militar direto entre as duas nações. Os conflitos seriam dirimidos nas áreas econômica, política, comunicacional e cibernética, no mundo da espionagem e da sabotagem, bem como por meio de confrontos armados mais limitados entre países aliados de uma ou outra das superpotências.O Congresso dos Estados Unidos está avaliando dezenas de projetos de lei cujo objetivo seria limitar, neutralizar ou sancionar a China. Uma pesquisa realizada no início de 2021 pelo Pew Center revelou que 89% dos americanos viam a China como um país concorrente ou inimigo.


Estados Unidos e China vivem um dos piores momentos de sua relação. Seus atritos e agressões mútuas vêm aumentando nos últimos tempos. De acordo com uma teoria conhecida como Armadilha de Tucídides, quando uma potência em ascensão ameaça o papel dominante de uma potência estabelecida, o conflito é quase inevitável.

Foto de satélite divulgada pelo The New York Times mostra locais dos silos de mísseis da China. Foto: via NYT

Certamente os Estados Unidos e a China estão fadados à competição. Mas o que deve ser igualmente óbvio é que os dois países também precisam colaborar. Há uma série de ameaças e problemas globais que põem em risco os interesses nacionais dessas duas superpotências e que não podem ser mitigados ou eliminados por qualquer uma delas agindo sozinha.


O exemplo mais ilustrativo dessas graves ameaças que exigem respostas conjuntas é a luta contra o aquecimento global. A própria natureza do problema, bem como as políticas para enfrentá-lo, requerem uma estreita colaboração entre Pequim e Washington.E essa coordenação não vai acontecer por altruísmo, solidariedade internacional ou simplesmente porque seria a resposta mais razoável. Acontecerá porque convém aos poderosos, porque é do interesse nacional destes dois gigantes que o aumento da temperatura do planeta não leve a cataclismos devastadores, os quais não irão respeitar oceanos nem fronteiras.


Outro exemplo de área em que a colaboração entre China e Estados Unidos se faz indispensável é a saúde global. Sabemos que a covid-19 não é a primeira nem será a última pandemia a assolar o mundo.