A tirania, enquanto ela vigora, não é reconhecida por suas vítimas

- MISES BRASIL - 27 Fev, 2021 -

Donald Boudreaux -


Quando elas acordam, o estrago já é irreversível


Uma resposta ingênua seria: pessoas diabólicas, de alguma maneira, capturam as alavancas do poder enquanto o povo está inocentemente cuidando de suas vidas. Com sorrisos sinistros e girando as pontas de seus bigodes de maneira sinistra, os tiranos violenta e unilateralmente impõem suas vontades criminosas sobre a população.

O povo rapidamente percebe que seus ditadores são venais e vis, mas pouco pode fazer a não ser se submeter silenciosamente. Já está escravizado. Sua única esperança de emancipação é a intervenção de um super-herói – um carismático corajoso para liderar uma revolução, ou um nobre governo estrangeiro enviando seus militares para protegê-los dos malfeitores.


Como dito, essa resposta é "ingênua", e certamente é. Mesmo assim, essa resposta refleta a atitude de muitos adultos. De acordo com essa atitude, a tirania é flagrante, pura e óbvia para todos (quase como num desenho animado); e, portanto, nunca é aceita voluntariamente. A tirania é um mal puro que é impiedosamente imposto sobre as massas desafortunadas.

Em nossas mentes, cidadãos esclarecidos que somos das democracias do século XXI, a tirania é o Reino do Terror na França revolucionária. São os nazistas e fascistas de 80 anos atrás. São Stalin, Mao e Saddam Hussein. São Vladimir Putin, Xi Jinping, Kim Jong-un e o Talibã de hoje.


Para aqueles de nós que vivenciamos eleições reais e regulares, a tirania parece estar confinada a tais regimes – regimes distantes no tempo ou espaço e, portanto, culturalmente distantes de nós.


Tiranos sempre são convincentes


Esses regimes passados e distantes são de fato tirânicos. No entanto, a atitude popular em relação a eles é perigosamente imatura. Todo tirano sempre consegue convencer um grande número de pessoas sob seu comando de que está utilizando a força exclusivamente para o bem maior. Os aspirantes a tiranos que não conseguem convencer o povo de seus propósitos nobres nunca conseguem o poder que anseiam. Muito poucas pessoas se submetem.


Todo e qualquer tirano verdadeiro sempre aponta para algum problema – talvez real ou talvez inventado, mas infalivelmente exagerado – cuja persistência infligirá ao seu amado povo um dano sem precedentes. Com sua cuidadosamente ensaiada pose de visionário corajoso e caridoso, ele convence o povo a obedecê-lo, demonstrando jamais ter receio de usar todos os poderes de que precisa para salvar seu povo dos terríveis perigos à espreita. E ele insiste que seu exercício de poder deve ser amplo e ousado, livre de sutilezas legais ou éticas que apenas o impediriam de salvar seu rebanho.


Tremendo de medo desses terríveis perigos descritos por seu senhor, e esperançoso pela salvação prometida, o povo se submete. Como ovelhas.


Muitas pessoas, é claro, reconhecem e até se irritam com a arbitrariedade do tirano e a dureza de seus ditames. Porém, acreditando que esses ditames são necessários para um bem maior, a maioria obedece humildemente. Há alguma reclamação, mas, no final, a dócil submissão prevalece. "O resultado final amanhã valerá a pena a dor, o sofrimento e a indignidade de hoje. Não temos escolha a não ser obedecer ao nosso líder", pensam eles.

E é assim que a verdadeira tirania surge e sobrevive. Ela surge e sobrevive sempre com a aceitação – e muitas vezes também com a aprovação entusiástica – de um grande número de suas vítimas. Essas vítimas, portanto, não sentem que estão vivendo sob uma tirania. Tirania é o que acontece com outras pessoas; pessoas menos iluminadas ou muito menos afortunadas do que nós; pessoas cujos opressores, ao contrário de nossos próprios líderes amorosos e preocupados, discursam louca e caricaturalmente em línguas estranhas, muitas vezes vestidos em trajes militares.


A tirania, acredita-se, não acontece conosco, pois não se se trata de uma tirania se o objetivo declarado é a nossa salvação; não é tirania aquilo que promete nos proteger de perigos que temos certeza de que são reais, grandes e iminentes.


E aquelas poucas aberrações ideológicas que imprudentemente insistem em chamar nossos salvadores de "tiranos" não reconhecem e não apreciam a necessidade de uma ação rápida e decisiva imposta de cima para baixo. Essas aberrações deveriam ser ignoradas e talvez até mesmo silenciadas à força.


Tirania, vale insistir, não acontece conosco. Afinal, estamos cumprindo voluntariamente as ordens de nossos líderes, sabendo que são para o nosso próprio bem. Se estivéssemos sofrendo a opressão de tiranos, resistiríamos. Somos, não se esqueça, um povo orgulhoso. Somos iluminados, democráticos e livres. Consequentemente, dado que a grande maioria de nós não está resistindo às ordens de nossos líderes, eles, por definido, não podem ser tirânicos. C.Q.D.


Nossos líderes, em suma, não são tiranos. Eles são servidores públicos em quem devemos confiar se quisermos ser salvos.


E assim concluem todos os tiranizados.


Socialismo Sanitário é tirania


Dado que a tirania sempre conta com o amplo apoio de suas vítimas, a maioria das pessoas que vive sob ela nã