A Segurança Alimentar da China e a Guerra Russo-Ucraniana

- THE EPOCH TIMES - Stu Cvrk - TRADUÇÃO CÉSAR TONHEIRO - 15 MAR, 2022 -

A Rússia fará a diferença nas exportações agrícolas da Ucrânia para a China?


A guerra russo-ucraniana complica a estratégia de segurança alimentar da China.


A segurança alimentar na China tem sido um problema real desde que o Partido Comunista Chinês (PCC) coletivizou a agricultura ao consolidar o controle sobre o país em 1949. As lições da agricultura comunista incluem baixa produtividade devido à falta de incentivos de mercado, já que todas as terras agrícolas são estatais.


A produção agrícola doméstica nunca atendeu à demanda sob o PCC. Como resultado, o PCC tem dedicado muita atenção à propaganda sobre “segurança alimentar” tanto em anúncios oficiais quanto por meio da mídia estatal chinesa, bem como na garantia de fontes estrangeiras de alimentos para garantir a “estabilidade” no país ao longo dos anos.

A guerra russo-ucraniana está complicando a segurança alimentar da China de várias maneiras. Examinemos a questão.


Agricultura chinesa


A China é o maior produtor, consumidor e importador mundial de produtos agrícolas. Por exemplo, a China importa 60% da quantidade total de soja disponível no mercado global em um determinado ano.


De acordo com um trabalho de pesquisa da Southern Illinois University, “em 2015, a China era o maior importador mundial de vegetais (com 15% de participação de mercado), o sétimo maior importador de produtos alimentícios (com 5% de participação de mercado) e o quarto maior importador de animais (com 7% de market share).”


A China tem 22% da população mundial, enquanto depende de 10% da terra arável do mundo para o seu abastecimento alimentar. A terra arável da China totaliza cerca de 120 milhões de hectares, com 0,083 hectares per capita, o que classifica a China bem abaixo da média mundial em 140º lugar, segundo o Nation Master. (Nota: um hectare é igual a 10.000 metros quadrados ou 2,471 acres de terra.)

Agricultores transplantam mudas de arroz com um transplantador de arroz em um arrozal em Hengyang, província de Hunan, China, em 20 de abril de 2018. (Reuters)

Pior ainda, com apenas 6% dos recursos hídricos do mundo, a disponibilidade de água per capita da China é um quarto da média mundial.


O PCC tem objetivos agrícolas nacionais concorrentes, de acordo com um briefing de segurança alimentar dado na Universidade McGill, no Canadá, por especialistas de duas universidades agrícolas na China. A primeira é garantir uma oferta crescente de alimentos a baixo custo para mobilizar e transferir recursos do setor agrícola para o setor industrial urbano. A segunda é atingir 95% de autossuficiência no atendimento das necessidades alimentares chinesas. Esses dois objetivos entram em conflito devido a uma série de problemas inerentes:


· Redução de terras aráveis devido à urbanização e comercialização.

· Degradação da qualidade da terra devido à poluição industrial.

· Falta de água para irrigação.

· Custos de produção crescentes (mão de obra, fertilizantes, energia, equipamentos, outros custos de materiais).

· Melhorias de rendimento em declínio ao longo do tempo.


Depois, há os problemas autoimpostos exigidos do setor agrícola, incluindo a falta de propriedade da terra, direitos limitados de utilização da terra, baixa produtividade devido à falta de incentivos e baixa lucratividade da agricultura em comparação com outros setores da economia chinesa. É incontestável que a agricultura estatal comunista leva à escassez de alimentos.


Para tentar resolver esses problemas, o PCC tem “mordido pelas bordas” por meio de políticas como as seguintes:


· Os contínuos subsídios maciços ao setor agrícola para incentivar a produção e criar uma lucratividade altamente subsidiada (artificial) para os trabalhadores rurais.

· O desenvolvimento de usinas de biocombustíveis na China, que é proibido por lei desde 2007 (basta pensar em todas as usinas de etanol que existem no Centro-Oeste dos EUA!).

· O foco no desenvolvimento de cepas genéticas resistentes a doenças e pragas de arroz, milho e outros grãos.

· A experimentação que leva ao desenvolvimento de arroz híbrido de super alto rendimento tolerante ao sal pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Arroz Marinho de Qingdao, que disponibiliza terras inúteis para a produção de arroz.

· O aumento da importação de commodities intensivas em terra, como óleos de sementes e trigo. (Nota: isso entra em conflito com a crescente ocidentalização da dieta chinesa em relação ao consumo de carne. A produção de carne reduz a terra disponível para a produção direta de alimentos humanos, enquanto aumenta a demanda pela importação chinesa de grãos para ração.)


Agronegócios Estrangeiros e Fazendas Estrangeiras


As medidas acima tiveram um impacto marginal na melhoria do problema de segurança alimentar da China. O verdadeiro foco em aumentar a produção doméstica de alimentos tem sido a aquisição de agronegócios estrangeiros e fazendas no exterior.


Nos últimos anos, a China vem adquirindo empresas de agronegócio estabelecidas na Europa, América do Norte e Oceania, conforme relatado pelo Serviço de Pesquisa Econômica do Departamento de Agricultura dos EUA.


“Isso inclui a aquisição da Syngenta por US$ 43 bilhões pela ChemChina, uma empresa suíça de produtos químicos e sementes agrícolas, a compra da Smithfield Foods, com sede nos EUA, pela Shuanghui International, e a compra da China National Cereals, Oils and Foodstuffs Corporation (COFCO) de duas grandes empresas comerciais agrícolas – Noble Agri e Nidera”, observou o relatório.

Trabalhadores da Smithfield Foods usam equipamentos de proteção e são separados por divisórias de plástico enquanto cortam carne em uma fábrica de processamento de carne suína em Sioux Falls, SD, em 20 de maio de 2020. (Cortesia de Smithfield Foods via AP)

Com relação às fazendas no exterior, a China fez investimentos agrícolas substanciais na América do Sul. Por exemplo, o Grupo Beidahuang, maior agronegócio da China, adquiriu 234.000 hectares para cultivar soja e milho na Argentina. O Chongqing Grain Group pagou US$ 1,575 bilhão por terras no Brasil e na Argentina para cultivar soja, milho e algodão.


Mas o “big chinese egg roll” (pastelzinho chinês) das fazendas chinesas no exterior é a Ucrânia.


Fazendas no exterior na Ucrânia


A Ucrânia tem sido chamada como o celeiro da Europa – e também do mundo. Por exemplo, o país ocupa o quarto lugar no mundo em exportações de milho, quarto em exportações de cevada e oitavo em exportações de trigo.


Conforme relatado pelo Epoch Times, a China importa 30% de suas exportações de milho e 28% de suas exportações de cevada da Ucrânia. A Ucrânia substituiu os Estados Unidos como principal fornecedora de milho da China em 2021, segundo a CNBC.


A China investe na Ucrânia há anos, com o objetivo duplo de usar o país como uma porta de entrada terrestre para a Europa para sua Iniciativa do Belt and Road [Cinturão e Rota] (BRI, também conhecida como “Um Cinturão, Uma Rota”) e também obter acesso às exportações agrícolas ucranianas e outros recursos naturais abundantes no país, incluindo minério de ferro, titânio, carvão e urânio.


Conforme relatado pela ViewsWeek, o Corpo de Produção e Construção de Xinjiang está alugando 100.000 hectares de terras ucranianas para as “fazendas no exterior” da China. De acordo com o plano de 50 anos assinado em 2014 com a KSG Agro, o maior agronegócio do país, “a Ucrânia fornecerá inicialmente à China pelo menos 100.000 hectares – uma área quase do tamanho de Hong Kong – de terras agrícolas de alta qualidade na região leste de Dnipropetrovsk, principalmente para o cultivo e a criação de porcos.”


O acordo se expandirá para 3 milhões de hectares ao longo do tempo, o que mais que dobrará o número de hectares controlados pela China no exterior.

Agricultores colhem grãos em terra perto da vila de Zhovtneve, na região de Chernigov, cerca de 136 milhas ao norte de Kiev, na Ucrânia, nesta foto de arquivo de 2021. (Genya Savilov/AFP/Getty Images)

Os russos entram em cena


Os chineses foram sábios em fazer esses investimentos, pois a Ucrânia tem mais de um quarto de chernozem ou “terra negra” do mundo, que talvez seja o solo mais fértil do mundo. E assim, a Ucrânia tornou-se central para a estratégia de segurança alimentar de longo prazo do PCC – pelo menos até que os russos chegassem a um acordo melhor.


Embora a China tenha sido o maior parceiro comercial da Ucrânia com US$ 19 bilhões por ano em 2019, os russos aparentemente ofereceram muito, muito mais – e provavelmente com desconto, já que as exportações russas para outros países estão sujeitas a sanções atualmente.


A Rússia concluiu recentemente 15 acordos comerciais com a China sob a égide da declaração conjunta que os dois países fizeram em 4 de fevereiro. Muitos desses acordos se concentraram nas exportações russas de hidrocarbonetos (petróleo, gás e carvão) para a China – dezenas de bilhões de dólares em compromissos nos próximos 25 ou mais anos que irão diminuir o comércio China-Ucrânia.


Além disso, a Reuters informou que a China havia suspendido as restrições às importações russas de trigo e cevada quando essa declaração conjunta foi anunciada. Essa foi mais uma bandeira vermelha de que o comércio ucraniano provavelmente seria sacrificado no altar de uma parceria russo-chinesa muito maior. Os russos estão, sem dúvida, felizes em poder compensar a diferença das exportações agrícolas ucranianas para a China, enquanto os chineses estão felizes em garantir fontes alternativas para aqueles na Ucrânia colocados em risco pela guerra russo-ucraniana.


Agora, tudo o que a China precisa fazer é garantir que as sanções ocidentais contra a Rússia não sejam estendidas ao seu parceiro comercial. E depois que a poeira baixar na Ucrânia (o que pode levar anos), o PCC pode reiniciar suas fazendas no exterior também.


Conclusão


A segurança alimentar continua sendo uma prioridade para a China. A guerra russo-ucraniana está complicando a estratégia de segurança alimentar do PCC. O comércio com a Rússia pode substituir o comércio da China com a Ucrânia, pelo menos no curto prazo – e muito provavelmente em termos mais favoráveis. O PCC sempre procura lucrar às custas dos outros!


As opiniões expressas neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente as opiniões do Epoch Times.


Stu Cvrk se aposentou como capitão depois de servir 30 anos na Marinha dos EUA em uma variedade de capacidades ativas e de reserva, com considerável experiência operacional no Oriente Médio e no Pacífico Ocidental. Por meio de educação e experiência como oceanógrafo e analista de sistemas, Cvrk é graduado pela Academia Naval dos EUA, onde recebeu uma educação liberal clássica que serve como base fundamental para seus comentários políticos.


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