A FAMÍLIA IMPERIAL

Jacy de Souza Mendonça

12/06/2020


Em certo período de minha carreira de Promotor, fui designado para as funções de administrador do grupo e tive que conflitar com a família imperial brasileira, depois de decorridos tantos anos desde a proclamação da república.


Um Promotor, que residia solitário em um casarão pintado de verde oliva com florões dourados, encimados pelos signos imperiais, criou em sua imaginação doentia a alucinação segundo a qual determinada moça, certamente uma das mais lindas da cidade, era, na verdade, uma princesa disfarçada. Como ele era solteiro e buscasse mulher de estirpe nobre para o consórcio, passou a assediá-la. Pouco lhe importava saber que era casada pois, para ele, esse ato jurídico seria nulo, uma vez que ela teria sangue real e o marido não.


Tudo andou em surdina, gerando apenas crises de comicidade, até que as investidas passaram a ser mais ostensivas e a moça, cansada da frequência com que tinha que enfrentar e desviar-se do alucinado, resolveu contar ao marido o que se passava. O próximo capítulo foi o encontro dos três e a surra que o marido deu, em público, no desmiolado Promotor.


Imagine-se a manchete da página policial dos jornais no dia seguinte: Promotor de Justiça maluco é agredido em público por marido enciumado...


E este não foi meu único contato com a monarquia brasileira. Como de praxe, as férias de um Promotor eram cobertas pelo Promotor da Comarca mais próxima. Seguindo essa rotina, tendo um deles solicitado férias, expedi ao colega mais próximo a informação de que deveria substituí-lo. Ele contestou alegando estar impossibilitado uma vez que o período da substituição coincidiria com aquele em que ele, habitualmente, precisava ir a Petrópolis, levar seu amplexo à augusta família imperial...


Ambos foram aposentados compulsoriamente por motivo de saúde (mental).


O tempo passa e a História perdura...

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